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Por Francisco Machado

Ao longo da minha trajetória na construção civil, liderando obras comerciais de grande porte, uma coisa sempre foi clara: construir, por muito tempo, significou lidar com incerteza. Mesmo com planejamento, acompanhamento e experiência, muitos problemas só apareciam quando a obra já estava em andamento ou, pior, quando já estava pronta e isso, infelizmente, não é teoria.

Em 2021, em Vila Velha, a piscina de um edifício desabou sobre a garagem. O episódio expôs uma causa conhecida na engenharia: infiltração ao longo do tempo, corrosão da estrutura e perda gradual de resistência. Não foi um colapso repentino. Foi um processo lento, invisível aos olhos, que evoluiu sem ser percebido.

Casos assim não são isolados. Em Nova York, o edifício residencial 432 Park Avenue, um dos mais altos do mundo, passou a registrar rachaduras, infiltrações e sinais de desgaste ao longo do tempo. Inaugurado em 2015, o empreendimento bilionário teve a fachada marcada por centenas de fissuras, indicando que a estrutura esguia vem sendo pressionada por fatores como vento e chuva, segundo análises de especialistas independentes, relatórios técnicos e documentos judiciais.

Quando olho para esses exemplos, a conclusão é direta. O problema não começa quando aparece. Ele começa muito antes, em sinais que não foram acompanhados. É exatamente aí que a tecnologia começa a mudar a forma como construímos.

Hoje, ferramentas como drones, inteligência artificial e sensores permitem acompanhar a obra e o comportamento da estrutura com um nível de precisão que antes não existia. Na prática, isso significa identificar infiltrações, movimentações e desgastes antes que eles evoluam.

O uso de drones ampliou o controle sobre o avanço físico das obras. A visão aérea ajuda a identificar desalinhamentos, ocupação inadequada do terreno e pontos de atenção que não são visíveis no dia a dia do canteiro. Já a inteligência artificial reforça a análise desses dados, cruzando informações e ajudando a antecipar falhas que antes dependeriam apenas da experiência prática.

Mas o avanço mais relevante, na minha visão, está nos sensores. Eles funcionam como um monitoramento contínuo da estrutura. Sensores de umidade conseguem identificar infiltrações antes que elas atinjam níveis críticos. Sensores de deslocamento mostram movimentações que ainda não são perceptíveis visualmente. Sensores de vibração ajudam a entender como a estrutura responde ao uso e ao ambiente.

Esse movimento já aparece nos números. Um estudo da McKinsey & Company mostra que a digitalização pode elevar a produtividade da construção civil em até 15% e reduzir custos ligados a retrabalho e falhas de execução. Em uma indústria historicamente marcada por desperdício, isso não é detalhe. Se esses mecanismos de monitoramento fossem mais presentes, muitos problemas deixariam de ser surpresa.

Uma infiltração que compromete uma estrutura não surge de um dia para o outro, uma rachadura não aparece sem histórico, um colapso não começa no momento em que acontece. Tudo isso é precedido por sinais. O que a tecnologia faz hoje é reduzir o intervalo entre o surgimento desses sinais e a capacidade de interpretá-los.

O impacto vai além da segurança. Obras mais monitoradas têm menos retrabalho, menos desperdício e mais previsibilidade de prazo e custo. E previsibilidade, na construção civil, é o que sustenta qualquer projeto.

Nada disso substitui o engenheiro. A tecnologia mostra o que está acontecendo, mas a decisão continua sendo técnica. Saber interpretar esses dados e agir no momento certo segue sendo responsabilidade de quem está à frente da obra. O que mudou foi o tempo dessa decisão. Antes, ela vinha depois do problema. Hoje, em muitos casos, ela pode vir antes e talvez esse seja o ponto mais incômodo para o setor. O problema nunca foi a falta de tecnologia. Foi o hábito de ignorar os sinais.

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