O planejamento patrimonial, antes concentrado em imóveis, investimentos, empresas e sucessão, começa a incorporar uma nova variável: a mobilidade internacional da família. Para brasileiros com projetos no exterior, cidadania e residência em outros países passam a ser avaliadas não apenas como caminhos para morar fora, mas como parte de uma estratégia de longo prazo.
O movimento acompanha a expansão da migração internacional de patrimônio. Segundo a Henley & Partners, 142 mil milionários mudaram de país em 2025, e a projeção para 2026 chega a 165 mil, considerando pessoas com pelo menos US$ 1 milhão em patrimônio líquido investível.
No Brasil, a procura por orientação migratória também reflete esse cenário. No primeiro semestre de 2026, mais de 4 mil brasileiros buscaram atendimento da Bicalho Consultoria Legal – especializada em imigração internacional. Os Estados Unidos concentraram cerca de 60% da demanda, seguidos por Portugal. Em 67% dos casos havia envolvimento de famílias, enquanto carreira foi apontada como principal motivação em 72% dos atendimentos. A procura de empresas brasileiras interessadas em expansão para os Estados Unidos cresceu 25% no período.
Para o advogado Dr. Vinicius Bicalho, CEO da Bicalho Consultoria Legal, professor e especialista em Direito Imigratório, esse movimento mostra que a decisão de buscar uma segunda cidadania ou residência internacional está cada vez mais relacionada a um projeto familiar e empresarial. “Não se trata necessariamente de uma decisão de deixar o Brasil. Muitas famílias estão buscando construir possibilidades para os próximos anos, seja para os filhos estudarem, para desenvolver negócios ou para ter maior liberdade de escolha sobre onde viver”, explica.
A decisão migratória precisa conversar com o patrimônio
Quando existem empresas, imóveis, investimentos ou planos de sucessão envolvidos, a escolha de uma nova jurisdição não deve ser analisada de forma isolada. É nesse ponto que entra o planejamento patrimonial.
Para Dr. Fabio de Paula, advogado e professor especialista em holdings e planejamento patrimonial, decisões relacionadas à internacionalização precisam estar alinhadas à estrutura jurídica e sucessória da família.
“Quando há planos de internacionalização, é importante avaliar desde o início os impactos dessa decisão sobre empresas, patrimônio e sucessão. A estrutura precisa acompanhar os objetivos da família e não ser pensada apenas depois que a mudança acontece”, afirma.
Isso não significa que um segundo passaporte reorganize automaticamente os bens ou altere a situação fiscal de uma pessoa. Cidadania, residência legal e residência fiscal são conceitos distintos, e a mudança de país pode gerar consequências jurídicas e tributárias que precisam ser avaliadas individualmente.
Por isso, para famílias que já possuem ou pretendem construir patrimônio em mais de uma jurisdição, o planejamento pode envolver diferentes profissionais e frentes de atuação. A imigração define as possibilidades de permanência e atuação no exterior, enquanto o planejamento patrimonial organiza os bens, empresas e sucessão de acordo com os objetivos estabelecidos.
Nesse cenário, o passaporte deixa de ser apenas um documento de viagem e passa a representar, para algumas famílias, mais uma peça de uma estratégia que combina patrimônio, sucessão e liberdade de escolha sobre o futuro.