Com a aproximação das eleições de 2026, a decisão de permanecer ou deixar o Brasil volta a ganhar espaço nas discussões de famílias, profissionais e empresários que avaliam projetos de vida e negócios de longo prazo. Mais do que uma escolha motivada exclusivamente por oportunidades no exterior, a decisão de migrar pode envolver uma combinação de fatores como perspectivas profissionais, ambiente econômico, segurança, planejamento familiar e percepção sobre a estabilidade das instituições.
O cenário brasileiro reúne, neste momento, diferentes elementos que alimentam esse debate. A taxa Selic permanece em patamar elevado e os juros vêm pressionando os resultados financeiros das empresas. No segundo trimestre de 2026, companhias brasileiras registraram crescimento de receita, mas o impacto dos juros sobre o custo das dívidas limitou a conversão desse desempenho em lucro líquido.
Ao mesmo tempo, episódios envolvendo instituições brasileiras e autoridades públicas vêm ampliando o debate sobre segurança jurídica e confiança nas instituições. As recentes repercussões envolvendo o ministro Alexandre de Moraes e o empresário Daniel Vorcaro, por exemplo, provocaram discussões públicas sobre o funcionamento e a credibilidade do Supremo Tribunal Federal.
Esse contexto não significa que brasileiros estejam deixando o país exclusivamente por razões políticas ou econômicas. A decisão migratória é mais complexa e, em muitos casos, representa um planejamento construído ao longo de meses ou anos. Mas, segundo a experiência da Bicalho Consultoria Legal, momentos de maior incerteza tendem a colocar a possibilidade de internacionalização de carreira, patrimônio e negócios no radar de um número maior de brasileiros.
Famílias inteiras e profissionais qualificados entram no movimento
Um levantamento realizado pela Bicalho Consultoria Legal mostra que 67% dos atendimentos envolveram famílias inteiras avaliando a possibilidade de construir uma vida fora do Brasil. O grupo inclui casais com filhos, profissionais em fase de consolidação de carreira e empresários.
Entre os profissionais que procuram orientação estão especialistas de áreas como tecnologia, inteligência artificial, engenharia, saúde, administração e finanças. Em sua maioria, são pessoas com formação superior e experiência consolidada no mercado de trabalho.
A carreira aparece como o principal fator declarado para essa decisão: 70% dos entrevistados apontaram a busca por melhores oportunidades profissionais e perspectivas de crescimento. Outros 20% citaram qualidade de vida, segurança e planejamento familiar, enquanto 10% demonstraram interesse em projetos relacionados à educação internacional e ao desenvolvimento acadêmico.
Os Estados Unidos continuam entre os principais destinos considerados pelos brasileiros. Segundo levantamento da Bicalho Consultoria Legal, mais de 4,5 mil brasileiros buscaram orientação migratória entre janeiro e julho de 2026, e os Estados Unidos concentraram 60% da demanda registrada no período. A pesquisa também identificou crescimento de 25% na procura de empresas brasileiras por informações relacionadas à expansão internacional e abertura de operações no mercado norte-americano.
O interesse pelos Estados Unidos ocorre mesmo diante de um cenário migratório mais restritivo. Em 2026, o país passou por mudanças e medidas que endureceram a política de imigração, além de disputas judiciais relacionadas à emissão de vistos de residência. Em agosto, uma decisão da Justiça americana derrubou uma restrição que atingia cidadãos de 75 países, incluindo o Brasil.
Para o Dr. Vinícius Bicalho, advogado licenciado no Brasil, nos Estados Unidos e em Portugal, CEO da Bicalho Consultoria Legal, membro da American Immigration Lawyers Association (AILA), professor e especialista em imigração empresarial, o endurecimento das regras não eliminou o interesse dos brasileiros pelos Estados Unidos, mas tornou a decisão mais estratégica.
“O brasileiro que procura os Estados Unidos hoje está muito mais consciente de que não basta querer sair do país. É preciso entender qual projeto de vida, carreira ou negócio será construído e, principalmente, qual caminho migratório é compatível com esse projeto. As regras estão mais rígidas e o planejamento passou a ser ainda mais importante”, afirma Bicalho.
Segundo o especialista, o componente econômico também aparece de forma cada vez mais evidente nas conversas com empresários. O crescimento de 25% na procura de empresas por informações sobre expansão internacional no primeiro semestre, segundo o levantamento da consultoria, indica que a internacionalização deixou de ser uma estratégia restrita a grandes grupos e passou a fazer parte do planejamento de empresas que buscam diversificação geográfica.
“Quando uma empresa avalia uma operação internacional, ela não está necessariamente abandonando o Brasil. Muitas vezes, está buscando diversificar riscos, acessar novos mercados e construir uma estrutura que permita maior previsibilidade para os próximos anos. A mesma lógica aparece entre profissionais e famílias: a decisão não precisa ser interpretada apenas como uma ruptura, mas como uma estratégia de longo prazo”, explica.
Eleições podem acelerar decisões que já estavam no radar
Na avaliação de Bicalho, períodos eleitorais costumam aumentar a atenção das pessoas sobre o futuro econômico e institucional do país, mas dificilmente são, isoladamente, responsáveis pela decisão de emigrar.
“A eleição pode funcionar como um gatilho para uma decisão que já vinha sendo amadurecida. Pessoas que já questionavam suas perspectivas profissionais, empresários que estudavam uma expansão internacional ou famílias que avaliavam uma mudança podem aproveitar esse momento para transformar uma possibilidade em planejamento concreto”, afirma.
A escolha dos Estados Unidos, nesse cenário, também está relacionada à dimensão da comunidade brasileira já estabelecida no país e à existência de oportunidades profissionais e empresariais. O país abriga a maior comunidade brasileira fora do Brasil: cerca de 725 mil brasileiros nascidos no país viviam nos Estados Unidos em 2024, segundo o Migration Policy Institute.
Para o especialista, entretanto, a procura crescente não deve ser confundida com uma decisão automática de mudança.“Imigrar é uma decisão que precisa ser analisada de maneira individual. O fato de existir insatisfação com o cenário brasileiro não significa que qualquer pessoa terá um projeto bem-sucedido nos Estados Unidos. É necessário avaliar perfil profissional, família, patrimônio, objetivos empresariais e, principalmente, qualificação para as modalidades migratórias disponíveis”, conclui Bicalho.