Brasil 360: Ministério da Saúde revoluciona a atenção básica
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Humberto Tobé, Isabella Werneck Zanon

Brasil 360 é a estratégia do Ministério da Saúde para fortalecer a Atenção Primária à Saúde (APS), que é o atendimento do posto de saúde, a Unidade Básica de Saúde (UBS). A ideia do nome é esta: a UBS faz um “giro de 360 graus” ao redor de si para enxergar o que o território tem de força e o que a população precisa, e assim cuidar da saúde de forma contínua.

O Ministério apresenta o Brasil 360 como parte da reconstrução do SUS depois da pandemia, com a atenção primária no centro do cuidado. A estratégia reúne nove frentes:

1. Um novo modelo de financiamento.

2. Investimento em saúde digital.

3. Equipamentos adequados a cada território.

4. Melhor atuação dos médicos do Mais Médicos.

5. Retomada das equipes multiprofissionais.

6. Ligação da atenção primária com o programa Agora Tem Especialistas.

7. Defesa da saúde da mulher e da população negra.

8. Cuidado especial com populações em maior vulnerabilidade.

9. Relação direta com o cuidado em saúde mental.

De onde o programa parte

A Estratégia Saúde da Família completou 31 anos. Em 1994 eram 300 equipes. Em 2004, 21.400. Em 2014, 39.300. Em 2025, já são 54.742 equipes de Saúde da Família. No total, o Ministério cofinancia 103.042 equipes em 44.938 UBS. São 54.742 equipes de Saúde da Família, 34.950 de Saúde Bucal e 6.288 multiprofissionais. A atenção primária tem 990.120 profissionais, entre eles agentes comunitários de saúde e médicos do Mais Médicos.Em 2024, o orçamento federal para o setor foi de R$ 54,9 bilhões.

Há também outros tipos de serviço:

  • equipes de Atenção Primária Prisional (680);
  • equipes de Saúde da Família Ribeirinha (321);
  • equipes de Consultório na Rua (308);
  • unidades odontológicas móveis (182);
  • Academias da Saúde (1.556);
  • Centros de Especialidades Odontológicas (1.223);
  • laboratórios de prótese dentária (3.546);
  • unidades básicas fluviais (68).

O novo modelo de financiamento:

O dinheiro federal para cada equipe de Saúde da Família passa a ter três componentes:

1. Componente de equidade (repasse fixo): É o valor base que a equipe recebe todo mês. Ele considera o Índice de Equidade e Dimensionamento (IED), que combina o grau de vulnerabilidade social do município com o seu tamanho. Quanto maior a necessidade, mais o repasse leva isso em conta.

2. Componente de vínculo e acompanhamento territorial: Mede se a equipe conhece e acompanha as pessoas do seu território.

3. Componente de qualidade: Mede se a equipe faz as boas práticas de cuidado, por meio de indicadores.

Esse modelo vale para os vários tipos de equipe: Saúde da Família, Saúde Bucal, multiprofissionais, ribeirinhas, Consultório na Rua e prisionais. Todas passam a ter repasse fixo, componente de vínculo e de qualidade, classificação em quatro faixas de desempenho, medição a cada quadrimestre e recurso de implantação.

O modelo anterior pedia cadastro de 4 mil pessoas por equipe urbana, o que sobrecarregava os profissionais. No modelo atual, o parâmetro depende do tamanho da cidade:

Porte do município

1 – Menos de 20 mil habitantes

2 – 20 mil a 50 mil

3 – 50 mil a 100 mil

4 – Mais de 100 mil

Pessoas por equipe (parâmetro)

1 – 2.000

2 – 2.500

3 – 2.750

4 – 3.000

Limite máximo para pagamento

1 – 3.000

2 – 3.750

3 – 4.125

4 – 4.500

Municípios 

1 – 3.000

2 – 1.050

3 – 338

4 – 319

Equipes

1 – 5.321

2 – 7.587

3 – 12.380

4 – 28.917

O objetivo é evitar sobrecarga, dar mais segurança e qualidade ao atendimento, aumentar a satisfação de quem usa o serviço e melhorar os resultados em saúde.

O material informa ainda que o repasse mensal às equipes de Saúde da Família subiu de R$1,02 bilhão (abril de 2024) para R$1,31 bilhão (maio de 2024), aumento de R$279 milhões por mês. Na primeira etapa de implantação, o acréscimo foi de R$3,36 bilhões. Os valores por equipe foram reajustados depois de 12 anos sem aumento no custeio.

Componente de vínculo:

O componente de vínculo tem duas dimensões: cadastro (30%) e acompanhamento (70%).

Cadastro: Vale a pessoa que tem cadastro individual completo e validado no sistema de informação (o Sisab). O cadastro completo inclui também o cadastro da casa e do território. O cadastro precisa estar atualizado nos últimos 24 meses. Considera-se ainda o perfil da população: pessoas em vulnerabilidade social (que recebem BPC ou Bolsa Família), crianças menores de 5 anos, pessoas com mais de 60 anos e o restante da população.

Acompanhamento: É a pessoa que teve mais de um contato com profissional de saúde em 12 meses, sendo pelo menos um deles um atendimento (individual, em grupo ou domiciliar). Só vacina ou procedimento isolado não basta. A combinação vale se for atendimento mais procedimento, ou atendimento mais atendimento.

Satisfação do usuário: Entra como um item extra, com a metodologia NPS. O usuário dá nota de 0 a 10. De 0 a 6 é detrator, de 7 a 8 é neutro e de 9 a 10 é promotor. O resultado é a porcentagem de promotores menos a de detratores. A intenção é ouvir quem usa o serviço e melhorar continuamente.

Valores associados à classificação da equipe: R$6.000 para “Bom”, R$4.000 para “Suficiente” e R$2.000 para “Regular”.

Ministério da Saúde da uma dica para melhorar: atualizar os cadastros com frequência, fazer a territorialização (conhecer e dividir o território), oferecer ações de acordo com a necessidade local, ampliar o leque de serviços da UBS, ajustar o número de pessoas por equipe ao parâmetro da portaria e acompanhar as novas portarias do Ministério.

Indicadores de qualidade

Os indicadores servem para induzir boas práticas. O componente quer melhorar a qualidade das informações registradas, criar cultura de uso de dados, aumentar o engajamento das equipes e estimular a contratualização entre gestores e equipes. Os sete indicadores das equipes de Saúde da Família são:

C.1. Mais acesso à APS. Considera atendimentos programados (consulta agendada e cuidado continuado) e demanda espontânea (escuta inicial, consulta no dia, urgência). Recomenda-se que todas as equipes façam os dois tipos.

C.2. Desenvolvimento infantil. Avalia se a criança teve a 1ª consulta até o 30º dia de vida, pelo menos 9 consultas até os 2 anos, 9 registros de peso e altura, 2 visitas do agentecomunitário (a primeira até 30 dias e a segunda até 6 meses) e todas as vacinas recomendadas.

C.3. Gestante e puérpera. Avalia:

  • 1ª consulta de pré-natal até 12 semanas;
  • pelo menos 7 consultas;
  • 7 registros de pressão arterial e de peso e altura;
  • 3 visitas do agente comunitário;
  • vacina dTpa a partir da 20ª semana;
  • testes de sífilis, HIV e hepatites no 1º trimestre, e de sífilis e HIV no 3º;
  • consulta e visita domiciliar no puerpério;
  • avaliação odontológica na gestação.

C.4. Diabetes. Avalia consulta nos últimos 6 meses, pressão arterial aferida, 2 visitas domiciliares em 12 meses, peso e altura, exame de hemoglobina glicada e avaliação dos pés.

C.5. Hipertensão. Avalia consulta nos últimos 6 meses, pressão aferida, 2 visitas domiciliares e registro de peso e altura.

C.6. Pessoa idosa. Avalia consulta em 12 meses, 2 registros de peso e altura, 2 visitas domiciliares e vacina contra gripe.

C.7. Prevenção do câncer na mulher. Avalia:

  • exame preventivo de colo do útero (mulheres de 25 a 64 anos, nos últimos 36 meses);
  • vacina HPV (meninas de 9 a 14 anos);
  • atendimento sobre saúde sexual e reprodutiva (14 a 69 anos);
  • mamografia de rastreamento (50 a 69 anos, nos últimos 24 meses).

Para melhorar o desempenho, o Ministério recomenda educação permanente, protocolos de cuidado integrados à rede, revisão da oferta de atividades, busca ativa dos grupos prioritários e o hábito do registro qualificado das informações.

Equipes Multiprofissionais (eMulti)

Desde 2008 o Brasil aposta em equipes com profissionais de diferentes áreas (como fisioterapia, nutrição e psicologia) atuando nas UBS, e o Ministério retomou o financiamento delas. Elas trabalham junto com as outras equipes, fazendo atendimento individual, em grupo e domiciliar, atividades coletivas, apoio matricial, discussão de casos, projetos terapêuticos e ações à distância. Hoje são 6.288 no país.

Há três modalidades:

Ampliada 

1 – Carga horária semanal 300 horas

2- Equipes da APS atendidas 10 a 12

3 -Implantação (parcela única) R$ 36.000

4 – Custeio mensal R$ 36.000

5 – Componente qualidade (classificação “bom”) R$ 6.750

6- Valor mensal total com tecnologia R$ 45.250

Complementar 

1 – Carga horária semanal 200 horas

2- Equipes da APS atendidas 5 a 9

3 -Implantação (parcela única) R$ 24.000

4 – Custeio mensal R$ 24.000

5 – Componente qualidade (classificação “bom”) R$ 4.500

6- Valor mensal total com tecnologia R$ 31.000

Estratégica

1 – Carga horária semanal 100 horas

2- Equipes da APS atendidas 1 a 4

3 -Implantação (parcela única) R$ 12.000

4 – Custeio mensal R$ 12.000

5 – Componente qualidade (classificação “bom”) R$ 2.250

6- Valor mensal total com tecnologia R$ 16.750

O componente de qualidade da eMulti avalia a média de atendimentos e as ações em conjunto com outras equipes, como reuniões, discussão de casos e atendimento odontológico compartilhado.

Brasil Sorridente: saúde bucal

Os valores de custeio foram reajustados a partir de 2023:

Equipe de Saúde Bucal 40h, modalidade 1: de R$ 2.453 para R$ 4.014 (63%).

Modalidade 2: de R$ 3.278 para R$ 7.064 (115,49%).

Qualidade da equipe: de zero para até R$ 3.267.

Centro de Especialidades Odontológicas I: de R$ 8.250 para R$ 23.100 (180%).

Unidade Odontológica Móvel (custeio mensal): de R$ 4.680 para R$ 9.360.

Serviço de Especialidades em Saúde Bucal: passou a receber R$ 7.200.

A Unidade Odontológica Móvel funciona como uma extensão da UBS e leva atendimento a comunidades rurais, quilombolas, indígenas e assentadas. Vem totalmente equipada (raio X, cadeira odontológica, gerador) e recebe incentivo federal para implantação e custeio mensal. A seleção dos municípios usa vulnerabilidade socioeconômica, extensão territorial e proporcionalidade regional. A estimativa é alcançar cerca de 2,8 milhões de pessoas.

A qualidade das equipes de saúde bucal é medida por: primeira consulta programada, tratamentos concluídos, taxa de extração dentária (menos extração indica que a equipe previne e trata antes), escovação supervisionada, procedimentos preventivos e tratamento restaurador atraumático.

Equipes específicas: ribeirinhas, Consultório na Rua e prisionais

Portarias de 2024 e 2025 atualizaram o financiamento dessas equipes, que também passaram a seguir os componentes do novo modelo, com qualidade e recurso de implantação. Alguns valores mensais:

Saúde da Família Ribeirinha: de R$ 13.920 para R$ 36.000 (61% a mais).

Consultório na Rua III: de R$ 35.200 para R$ 42.000 (16%).

Consultório na Rua II: de R$ 27.300 para R$ 33.250 (18%).

Consultório na Rua I: de R$ 19.900 para R$ 24.500 (19%).

Atenção Primária Prisional: aumento de 13% em todas as modalidades, por exemplo de R$ 40.000 para R$ 46.000 na ampliada de 30 horas.

Os recursos de implantação também subiram. A equipe ribeirinha passou de R$ 20.000 para R$ 50.000. As de Consultório na Rua e as prisionais, que antes não tinham esse valor, passaram a receber de R$ 20.000 a R$ 40.000, conforme a modalidade.

Investimentos em estrutura: o Novo PAC Saúde

O Novo PAC Saúde retomou os investimentos nas UBS. Nas duas primeiras etapas de seleção (2024 e 2025), são previstos:

2.600 novas UBS (1.800 na primeira etapa e 800 na segunda), com R$ 6,5 bilhões;

800 unidades odontológicas móveis (400 e 400), com R$ 303,8 milhões;

10.000 combos de equipamentos, com R$ 1,58 bilhão.

Ao todo, o Novo PAC Saúde prevê R$ 7,4 bilhões em recursos federais para a atenção primária: R$ 5,3 bilhões de 2023 a 2026 e R$ 2,1 bilhões depois de 2026.

Os novos projetos de UBS incluem sala de amamentação, Sala Lilás (acolhimento a mulheres em situação de violência), consultórios para as equipes multiprofissionais, consultórios odontológicos, espaços para práticas coletivas e escovódromos.

O combo de equipamentos leva 180 mil itens a 10 mil UBS, em 5.126 municípios. Cada combo tem 18 tipos de equipamento. O objetivo é conectar e modernizar as UBS e integrá-las às estratégias de vacinação, combate às arboviroses, acesso a especialistas, Telessaúde, Mais Médicos e SUS Digital.

Mais Médicos

O programa leva médicos a regiões prioritárias, remotas, de difícil acesso e alta vulnerabilidade, onde há falta desses profissionais. Também oferece formação como aperfeiçoamento, especialização, mestrado e doutorado. Os números de profissionais ativos cresceram: 15.497 em 2022, 21.199 em 2023, 25.511 em 2024 e 26.756 em 2025. O investimento passou de R$ 2,7 bilhões (2018) para R$ 5,5 bilhões (2024) e R$ 6,5 bilhões previstos para 2025.

Formação dos profissionais

Uma portaria de 30 de setembro de 2025 (nº 8.284) determina que a formação e a educação permanente fazem parte do trabalho das equipes. Os profissionais podem ser liberados por até 16 horas mensais, desde que o vínculo esteja ativo no cadastro nacional de estabelecimentos (SCNES), a gestão garanta a substituição para não faltar atendimento, o certificado seja apresentado ao final e, preferencialmente, as atividades ocorram na própria UBS.

Como a UBS conversa com o especialista

A política determina que os serviços especializados trabalhem articulados com a atenção primária. Eles devem estar vinculados a um território e a um número definido de serviços da atenção primária, compartilhar informações clínicas, tomar decisões junto com as equipes e definir protocolos de encaminhamento e alta responsável.

O material lista 18 estratégias para isso, entre elas: estratificação de risco, gestão das filas de espera, monitoramento de faltas às consultas, apoio matricial, uso da saúde digital, transição segura do cuidado após a alta, planejamento do transporte sanitário e explicação do caminho ao paciente em linguagem simples. 

Informática e saúde digital

O e-SUS APS é o sistema gratuito, feito pelo SUS, que reúne o prontuário eletrônico, a coleta de dados simplificada, aplicativos móveis e integração com outros sistemas. O Programa SUS Digital (portaria de abril de 2024) busca a transformação digital do SUS para ampliar o acesso e a resolutividade. Já o SIAPS, novo Sistema de Informação para a APS, publica relatórios detalhados para a gestão e permite acompanhar as transferências de recursos federais (endereço: relatorioaps.saude.gov.br).

Investimento do Governo

O orçamento da atenção primária cresceu de R$ 35,3 bilhões (2022) para R$ 41,1 bilhões (2023), R$ 54,1 bilhões (2024) e R$ 60,4 bilhões (2025), alta de 71,1%. O custeio mensal das equipes foi de R$ 24,1 bilhões (2022) para R$ 37,3 bilhões (2025), alta de 53%

Referências

BRASIL. Ministério da Saúde. Brasil 360. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2026.

Humberto Tobé é Pós-Graduado em Gestão da Saúde Pública, trabalha na interlocução com prefeitos, vereadores, gestores municipais e representantes da área da saúde dos municípios paulistas.

Isabella Werneck Zanon é graduanda em Políticas Públicas e Mestranda em Relações Internacionais pela Universidade Federal do ABC (UFABC)

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