Com mais de 15 anos de experiência em atenção domiciliar, São Bernardo mostra ao ABC o que o cuidado em casa é capaz de fazer
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Artigo por: Humberto Tobé, Fátima Christine

Serviço municipal já acompanhou mais de 6.500 pacientes e reforça a importância do novo programa federal voltado aos idosos

Desde 2009, São Bernardo do Campo mantém um Serviço de Atenção Domiciliar que leva equipes de saúde até a casa de pacientes que não conseguem se deslocar. Em março de 2024, quando completou 15 anos, o serviço já havia acompanhado mais de 6.500 pessoas e mantinha cerca de 320 pacientes em atendimento em casa, segundo a prefeitura.

Para a Secretaria de Saúde do município, esse número equivale a ter “mais um hospital” funcionando na rede, sem ocupar um único leito.

A experiência da cidade, que tem 810.729 habitantes segundo o Censo 2022, ajuda a entender por que o cuidado domiciliar se tornou prioridade nacional. Em junho de 2026, o Ministério da Saúde lançou o Programa de Atenção Domiciliar à Pessoa Idosa, o Padi Brasil, que leva esse modelo para a Atenção Primária, com foco nos idosos.

O SUS já tinha modalidades de atenção domiciliar voltadas a pacientes com necessidades mais complexas, como aqueles que acabaram de sair do hospital ou que dependem de cuidados intensivos em casa. O Padi Brasil chega para cuidar de um público diferente e muito numeroso: idosos com 60 anos ou mais, restritos ao domicílio, com doenças crônicas estáveis e perda de autonomia, que precisam de acompanhamento contínuo, mas não de procedimentos de alta complexidade.

O programa financia equipes multiprofissionais da Atenção Primária, as eMulti, com incentivo federal adicional de R$ 5 mil a R$ 10 mil mensais por equipe. Essas equipes fazem uma avaliação ampla do idoso, montam um plano de cuidados individual e orientam familiares e cuidadores. Quando o caso se agrava, articulam o encaminhamento para serviços de maior complexidade.

A combinação dos dois níveis forma uma rede completa. O idoso frágil é acompanhado pela Atenção Primária antes de adoecer gravemente. Se precisar de cuidados mais intensivos, conta com a atenção domiciliar especializada. E quando melhora, volta a ser acompanhado pela equipe da Atenção Primária.

O ABC paulista reúne cidades densamente povoadas, com hospitais que atendem toda a região e operam com frequência no limite. Nesse cenário, cada idoso bem acompanhado em casa representa um leito liberado e uma ida a menos ao pronto-socorro. A experiência de São Bernardo mostra que o cuidado domiciliar organizado alivia a rede e devolve dignidade aos pacientes.

O serviço do município também ganhou reconhecimento técnico: um instrumento desenvolvido pela equipe para classificar pacientes, definir elegibilidade e qualificar a alta conquistou o primeiro lugar no I Simpósio Internacional de Atenção Domiciliar. É o tipo de reconhecimento que pode ser compartilhado com os municípios vizinhos.

Quando não há equipes que visitem os pacientes em casa, o hospital passa a ser o único lugar onde o idoso frágil recebe cuidado. Isso significa internações mais longas, mais risco de infecção hospitalar e mais perda de autonomia. Significa também famílias sem orientação, tentando aprender sozinhas a lidar com sondas, curativos e medicamentos.

No Brasil, 80% dos idosos dependem exclusivamente do SUS. Para eles, a atenção domiciliar não é luxo. É o que separa um envelhecimento acompanhado de um envelhecimento entregue à sorte.

O exemplo de São Bernardo do Campo mostra que o caminho funciona. O Padi Brasil oferece ao ABC inteiro os meios para ampliá-lo.

Referências

BRASIL. Ministério da Saúde. Portaria GM/MS nº 9.584, de 22 de dezembro de 2025. Institui o Programa de Atenção Domiciliar à Pessoa Idosa (Padi) e estabelece critérios para o repasse de incentivo financeiro adicional às equipes Multiprofissionais na Atenção Primária à Saúde (eMulti). Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, 23 dez. 2025. Disponível em: https://www.in.gov.br/web/dou/-/portaria-gm/ms-n-9.584-de-22-de-dezembro-de-2025-677630929.

Sobre os autores:

Humberto Tobé é Pós-Graduado em Gestão da Saúde Pública, trabalha na interlocução com prefeitos, vereadores, gestores municipais e representantes da área da saúde dos municípios paulistas.

Fatima Crhistine é mestranda em Políticas Públicas pela Universidade Católica de Brasília (UCB), graduada em Economia e Pedagogia, com pós-graduação em Educação Parental e Socioemocional. Servidora Pública Federal cedida da Universidade Federal do ABC para a Secretaria Executiva do Ministério da Saúde.

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