Mesmo no estado mais rico do país, milhões convivem com insegurança alimentar; renda insuficiente, informalidade e falhas estruturais explicam por que o trabalho já não garante o básico
“Não é falta de comida. É falta de acesso. E isso muda completamente o tipo de solução que a cidade precisa”, diz João Felipe
São Paulo acorda todos os dias com pressa mas nem todo mundo corre pelo mesmo motivo. Enquanto uma parte da cidade disputa espaço, tempo e oportunidades, outra corre contra algo mais urgente: a possibilidade real de não ter o que comer no fim do dia.
A cena é menos visível do que deveria, mas está longe de ser exceção.
Dados da Fundação Seade mostram que, em 2024, 19,3% dos domicílios paulistas enfrentavam algum nível de insegurança alimentar. Entre as famílias mais pobres, o cenário é ainda mais crítico: cerca de 34% relataram episódios recentes de fome.
Não se trata apenas de estatística. Trata-se de rotina.
Quando o trabalho já não garante o básico
A ideia de que “quem trabalha consegue se sustentar” já não explica a realidade de uma parcela significativa da população. Em São Paulo, o trabalho continua existindo o que falta, cada vez mais, é a capacidade desse trabalho garantir dignidade.
Segundo o IBGE, a taxa de informalidade no estado gira em torno de 29,7%. São milhões de pessoas vivendo de renda instável, sem proteção social e sem previsibilidade.
É nesse cenário que surge a contradição central: gente produtiva, ativa, trabalhando todos os dias e ainda assim convivendo com a escassez.
“O problema não é falta de esforço. É um sistema que não transforma esforço em estabilidade”, afirma João Felipe.
A fome que começa antes do prato vazio
Antes de faltar comida, a fome aparece de outras formas. Na redução da qualidade da alimentação, na substituição de itens mais nutritivos por opções mais baratas, no corte silencioso de refeições.
Levantamento da Fundação Seade indica que:
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62% das famílias reduziram a qualidade e variedade dos alimentos
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22% deixaram de fazer alguma refeição por falta de recursos
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71% cortaram gastos com alimentação fora de casa
A fome, portanto, não começa quando o prato está vazio. Ela começa quando a escolha deixa de existir.
O problema não é escassez é acesso
O Brasil, em termos gerais, produz alimentos suficientes. Ainda assim, milhões de famílias enfrentam restrições severas. Em 2024, cerca de 2,5 milhões de lares brasileiros estavam em situação de insegurança alimentar grave, segundo o IBGE.
Para João Felipe, esse é o ponto mais negligenciado do debate.
“Quando a gente trata a fome como falta de comida, a solução vira doação. Quando entende que é falta de acesso, a solução vira renda, oportunidade e estrutura”, diz.
A diferença, segundo ele, não é apenas conceitual é prática.
Uma cidade que produz riqueza e distribui instabilidade
São Paulo concentra uma das maiores economias da América Latina. Ainda assim, a distribuição dessa riqueza não acompanha o mesmo ritmo.
Nos centros comerciais, como a Rua 25 de Março, trabalhadores informais sustentam parte relevante da dinâmica econômica. Vendem, negociam, geram fluxo mas continuam fora de grande parte das políticas estruturais.
“A cidade funciona porque essas pessoas trabalham. Mas elas continuam invisíveis quando se discute solução”, afirma João Felipe.
O que São Paulo ainda não quer encarar
A fome em São Paulo não é um acidente. É um sintoma.
Ela revela um modelo em que o trabalho não garante segurança, em que a renda não acompanha o custo de vida e em que parte da população segue fora do alcance das soluções.
E talvez o dado mais duro não seja o percentual de famílias que passam fome.
É o fato de que muitas delas trabalharam o dia inteiro antes disso acontecer.
“Quando trabalhar não é suficiente para comer, o problema não está na pessoa. Está no sistema”, conclui João Felipe.