Especialista em comportamento humano analisa como vínculos marcados por manipulação emocional podem levar vítimas ao apagamento gradual da própria identidade
Em meio ao crescimento dos debates sobre saúde mental e relações afetivas, especialistas alertam para um fenômeno silencioso cada vez mais comum: a perda gradual da identidade dentro de relações emocionalmente abusivas.
Embora muitas dessas relações não apresentem violência física, os impactos psicológicos podem ser profundos. Sentimentos constantes de culpa, insegurança emocional, ansiedade e dificuldade de reconhecer os próprios limites estão entre os sinais mais frequentes relatados por vítimas desse tipo de vínculo.
Para o psicoterapeuta integrativo e psicanalista clínico Danilo Mattos, o processo costuma acontecer de forma lenta e quase imperceptível.
“Muitas pessoas passam anos tentando sustentar relações que, aos poucos, silenciam suas emoções e enfraquecem sua percepção de si mesmas. É um sofrimento que nem sempre deixa marcas visíveis, mas afeta profundamente a identidade emocional da vítima”, afirma.

Pesquisador do comportamento humano e autor do livro Cansei de Eco: com lentes se revelam, com o convívio sente-se a dor, Danilo utiliza o mito de Eco e Narciso como referência simbólica para compreender relações marcadas pelo apagamento emocional e pela dependência afetiva.
“A vítima começa a abandonar gradualmente suas necessidades, opiniões e limites para preservar o vínculo. Quando alguém precisa se anular constantemente para manter uma relação, existe um desgaste emocional importante acontecendo ali”, explica.
Segundo o especialista, um dos maiores desafios enfrentados por vítimas de relações abusivas está justamente no processo de reconstrução da identidade após o rompimento.
“Muitas pessoas saem dessas relações sem conseguir reconhecer quem são, do que gostam ou quais são seus próprios valores. Existe uma geração emocionalmente cansada de se adaptar para ser aceita”, conclui.