Medicina regenerativa amplia campo de pesquisa para o tratamento da queda de cabelo
Foto Divulgação Clínica Cadore

A queda de cabelo pode ter diferentes causas, da predisposição genética a alterações hormonais, doenças inflamatórias, deficiências nutricionais e períodos de estresse. Identificar a origem do problema continua sendo uma etapa fundamental do tratamento, mas novas técnicas vêm sendo incorporadas às pesquisas e à prática da dermatologia. Entre elas estão procedimentos ligados à medicina regenerativa, área que estuda maneiras de aproveitar mecanismos biológicos do próprio organismo na recuperação e manutenção dos tecidos.

Na saúde capilar, dois desses recursos são os exossomas e os microenxertos autólogos. Embora funcionem de maneiras diferentes, ambos têm sido investigados como alternativas complementares para determinados tipos de alopecia.

Pioneira em Santa Catarina no uso de terapias com exossomas e medicina regenerativa avançada, a médica dermatologista Débora Cadore explica que os exossomas funcionam como estruturas de comunicação entre as células.

“Os exossomas são vesículas de comunicação entre as células. São como mensageiros: saem de uma célula e levam informações para outra. Entre os sinais que podem transmitir estão aqueles relacionados à fase de crescimento dos cabelos”, explica.

Essas pequenas vesículas transportam diferentes moléculas envolvidas na comunicação celular. Na pesquisa sobre regeneração capilar, estudos têm investigado sua capacidade de atuar em processos associados à atividade do folículo e ao ciclo de crescimento dos fios.

Realizando a aspiração do microenxerto celular (foto Divulgação Clínica Cadore)

Quando o material vem do próprio paciente

Uma das possibilidades é trabalhar com material autólogo, ou seja, proveniente do próprio organismo da pessoa que será tratada. Na abordagem utilizada por Débora, a obtenção parte principalmente do sangue do paciente.

Após a coleta, as plaquetas passam por um processo de ativação para liberação das vesículas, que posteriormente são utilizadas no tratamento do couro cabeludo. Outras fontes de material autólogo também podem ser empregadas dentro da medicina regenerativa, como tecido adiposo e pequenas amostras de tecido.

O interesse pelos exossomas na saúde dos cabelos cresceu nos últimos anos, acompanhado pelo aumento das pesquisas sobre seu papel na comunicação celular. Uma revisão sistemática publicada em 2025 reuniu 11 estudos clínicos sobre diferentes fontes de exossomas no tratamento da queda de cabelo. Os trabalhos registraram melhora em pelo menos um parâmetro capilar avaliado, mas os próprios pesquisadores destacaram diferenças importantes entre os estudos, além do número reduzido de participantes e dos diferentes períodos de acompanhamento. Por isso, ainda são necessários ensaios clínicos maiores e protocolos mais padronizados.

Para Débora, o uso dessas abordagens precisa partir do diagnóstico. Alopecia não corresponde a uma única doença e nem todo quadro de queda ou afinamento dos cabelos terá indicação para o mesmo procedimento.

Microenxerto não é transplante capilar

Outra técnica que vem sendo estudada para casos de alopecia androgenética utiliza uma pequena amostra do próprio couro cabeludo. Apesar do nome, o microenxerto autólogo não deve ser confundido com o transplante capilar.

No transplante, folículos são retirados de uma área doadora e implantados nas regiões em que houve perda de cabelo. No microenxerto celular, a lógica é diferente. Uma pequena amostra é retirada da região posterior do couro cabeludo, escolhida por preservar folículos menos suscetíveis ao processo de miniaturização característico da alopecia androgenética.

O tecido coletado é processado para formar uma suspensão celular, que pode conter células relacionadas aos folículos, células progenitoras e outros componentes presentes naquele tecido. O material é então aplicado na região afetada pelo afinamento dos cabelos.

“Pegamos uma amostra de uma região onde a calvície não costuma acometer e fazemos uma suspensão celular. Depois, esse material do próprio paciente é utilizado na área afetada”, explica Débora.

Uma revisão sistemática e meta-análise publicada em 2026 encontrou resultados favoráveis para a tecnologia de microenxertos autólogos em pacientes com alopecia androgenética. Os autores, porém, também apontam que parte dos estudos disponíveis trabalha com grupos pequenos de pacientes e que ainda faltam ensaios clínicos mais amplos.

Dra Débora Cadore

Temas chegam aos congressos médicos

As duas técnicas estarão entre os assuntos apresentados por Débora Cadore em congressos da área nos próximos meses.

Nos dias 25 e 26 de setembro, a dermatologista participa, a convite da Sociedade Brasileira de Tricologia, do III Congresso Brasileiro de Tricologia, em Curitiba. A aula será dedicada aos exossomas autólogos e às possibilidades de utilização dessas vesículas na saúde capilar.

Entre 29 de outubro e 1º de novembro, Débora será palestrante no Congresso Mundial de Tricoscopia, no Rio de Janeiro. Desta vez, apresentará uma aula sobre microenxertos autólogos no tratamento das alopecias.

CEO e diretora técnica da Cadore Clínica Dermatológica, em Florianópolis, Débora é graduada em Medicina pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), tem especialização em Dermatologia pela Santa Casa de São Paulo e em Oncologia Cutânea pelo A.C.Camargo Cancer Center. Também realizou formação na área de cabelos e unhas na Universidade de Bolonha, na Itália, e na Universidade de Miami, nos Estados Unidos.

A médica é preceptora da residência médica em Dermatologia no Ambulatório de Cabelos e Unhas da UFSC e integra sociedades científicas nacionais e internacionais ligadas à dermatologia, à tricoscopia e à pesquisa em cabelos.

Fotos: Divulgação Clínica Cadore

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