Histórico de saúde, medicamentos em uso e tolerância aos efeitos adversos são fatores considerados pelo médico na escolha e no ajuste do tratamento da obesidade
Mais da metade da população brasileira está acima do peso, e cerca de 20% dos adultos vivem com obesidade, segundo dados da Pesquisa de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel). Nesse quadro, os medicamentos para emagrecer podem integrar o tratamento da obesidade, mas a escolha da substância e a definição da dose dependem das condições clínicas de cada paciente.
Entre as opções disponíveis estão medicamentos injetáveis, como liraglutida, semaglutida e tirzepatida, além de tratamentos orais, como orlistate e sibutramina. Eles têm mecanismos de ação, indicações, contraindicações e efeitos adversos diferentes. Por isso, não existe uma única opção adequada para todas as pessoas. O tratamento deve ter indicação e acompanhamento médico.
Por que a escolha e a progressão da dose exigem avaliação médica?
Antes de prescrever um medicamento, o profissional avalia o histórico clínico, a presença de doenças associadas, os medicamentos já utilizados e a possibilidade de interações. Também considera os sintomas relatados, as contraindicações, os efeitos adversos esperados e o custo do tratamento.
“O que devemos levar em consideração nesse momento: a pessoa tem doenças, tem algum tratamento que ela faz, tem remédios que usa, tem risco de interação, tem algum sintoma que essa pessoa apresenta no dia a dia?”, explica Cláudia Schimidt, endocrinologista do Hospital Israelita Albert Einstein, em entrevista ao portal Drauzio Varella. A médica também destaca características do medicamento, como potência, efeitos colaterais possíveis e custo.
Em tratamentos que exigem aumento gradual da dose, a progressão permite avaliar a tolerância do organismo e reduzir a probabilidade de alguns efeitos adversos. Náuseas, vômitos, diarreia e constipação podem ocorrer com medicamentos que atuam nas vias hormonais relacionadas ao apetite e à digestão.
O ritmo de progressão e a dose utilizada variam conforme o medicamento, a resposta clínica e a tolerância do paciente. Se surgirem efeitos adversos, o médico pode reavaliar o esquema terapêutico e decidir se é necessário mantê-lo, ajustá-lo ou interrompê-lo. Aumentar a dose por conta própria não acelera necessariamente os resultados e pode elevar os riscos.
Os riscos da automedicação e do ajuste inadequado de doses
O uso sem prescrição ou supervisão pode expor a pessoa a efeitos adversos, contraindicações e interações medicamentosas que não foram avaliadas. Também pode levar a erros de administração e à utilização de um tratamento sem indicação clínica.
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) alertou, em fevereiro de 2026, para o risco de pancreatite aguda associada ao uso indevido de medicamentos agonistas do receptor de GLP-1 (peptídeo semelhante ao glucagon tipo 1). A agência reforça que esses produtos devem ser usados conforme as indicações aprovadas e sob prescrição e acompanhamento de profissional habilitado.
Desde 2025, medicamentos dessa classe estão sujeitos à retenção da receita na dispensação em farmácias e drogarias brasileiras. A medida visa ampliar o controle sobre o uso e contribuir para a segurança dos pacientes.
A importância da individualização no tratamento do sobrepeso
A escolha do tratamento também depende do quadro clínico e das condições de saúde associadas ao excesso de peso. Em geral, a farmacoterapia pode ser considerada para pessoas com obesidade ou com sobrepeso acompanhado de condições relacionadas ao peso, conforme os critérios aprovados para cada medicamento.
Durante o acompanhamento, a progressão da dose deve seguir o esquema prescrito. Assim, uma apresentação como wegovy 1mg precisa ser compreendida dentro do plano terapêutico definido para aquele paciente, e não como uma dose indicada indistintamente a qualquer pessoa.
O tratamento também envolve mudanças no estilo de vida, incluindo alimentação equilibrada, atividade física adequada às condições individuais e acompanhamento nutricional quando indicado. A medicação não substitui esses cuidados, nem dispensa a avaliação periódica dos resultados e dos possíveis efeitos adversos.
A dosagem individualizada permite ajustar o tratamento às necessidades e à resposta de cada paciente.
A abordagem médica, nesse sentido, busca melhorar a saúde metabólica, acompanhar a evolução clínica e equilibrar benefícios e riscos ao longo do tempo.