Sedentarismo, colesterol alto, alimentação inadequada e estresse estão
entre os fatores que merecem atenção; cirurgião cardiovascular explica por que
a prevenção não deve esperar o envelhecimento
A
preocupação com a saúde do coração costuma aparecer com mais força depois dos
40 ou 50 anos. Antes disso, a rotina corrida, o trabalho, os compromissos e a
sensação de que ainda há muito tempo pela frente podem fazer com que consultas
e exames preventivos fiquem em segundo plano. Mas, será que a juventude é mesmo
uma proteção contra as doenças cardiovasculares?
Embora
o envelhecimento contribua para o aparecimento de determinadas doenças
cardiovasculares, problemas relacionados à saúde do coração também podem
atingir pessoas mais jovens. Fatores como pressão alta, colesterol elevado, diabetes,
obesidade, tabagismo e sedentarismo podem se desenvolver ao longo dos anos,
muitas vezes sem provocar sintomas evidentes. Um posicionamento científico da
American Heart Association publicado em 2025 chamou a atenção para a presença
desses fatores já na adolescência e no início da vida adulta, reforçando a
importância da prevenção precoce.
Para
o cirurgião cardiovascular Dr. Gustavo Ieno Judas, da Clínica Sérgio Almeida,
cuidar do coração não deve ser uma preocupação restrita a quem já apresenta sintomas
ou histórico de doenças. A atenção aos hábitos cotidianos e o acompanhamento da
saúde ao longo da vida são fundamentais para identificar riscos e agir antes
que ocorram complicações.
“Existe
a ideia de que problemas cardiovasculares são uma preocupação de pessoas mais
velhas, mas alguns fatores de risco começam a se desenvolver muito antes. A
pressão arterial e o colesterol, por exemplo, podem estar alterados sem que a
pessoa perceba. Por isso, não devemos esperar o aparecimento de sintomas para
começar a cuidar do coração”, explica o médico.
A
rotina também pode afetar a saúde do coração
Passar
muitas horas sentado, praticar pouca atividade física, dormir mal, conviver com
estresse constante e manter uma alimentação desequilibrada são situações comuns
na vida contemporânea. Quando esses hábitos se tornam frequentes, podem
contribuir para o desenvolvimento de fatores de risco cardiovasculares.
O
tabagismo, incluindo o uso de dispositivos eletrônicos para fumar, também
merece atenção. Além disso, o histórico familiar pode indicar uma predisposição
a determinadas condições, como colesterol elevado e doenças cardíacas, mesmo
entre pessoas que mantêm hábitos considerados saudáveis.
Isso
não significa que um único comportamento determine o surgimento de uma doença.
O risco cardiovascular resulta da combinação de diferentes fatores, incluindo
aspectos genéticos, condições clínicas e estilo de vida. Por isso, a avaliação
individual é importante para identificar quais cuidados fazem mais sentido para
cada pessoa.
“Não
é necessário esperar uma mudança radical na rotina para começar a cuidar da
saúde. Praticar atividade física regularmente, melhorar a alimentação, não
fumar e acompanhar indicadores como pressão arterial, glicemia e colesterol são
medidas importantes. A frequência dos exames e o tipo de acompanhamento devem
considerar a idade, o histórico familiar e as condições de cada pessoa”,
orienta Dr. Gustavo.
Alterações
congênitas também merecem atenção
Além
dos fatores de risco relacionados aos hábitos de vida, algumas alterações
anatômicas congênitas podem favorecer o aparecimento de doenças cardiovasculares
em pessoas jovens. É o caso da válvula aórtica bicúspide, uma condição em que a
válvula apresenta duas cúspides, em vez das três habituais, e que pode
favorecer a degeneração mais precoce da válvula e o desenvolvimento de doenças
da aorta.
Nesses
casos, a investigação médica é importante para identificar possíveis alterações
e determinar a necessidade de acompanhamento. Essa avaliação também merece
atenção entre pessoas jovens que pretendem iniciar ou intensificar a prática de
atividades físicas.
Cansaço
e falta de ar merecem atenção?
Um
dos pontos que dificultam o reconhecimento de problemas cardiovasculares é que
algumas condições podem evoluir sem sintomas claros. Quando manifestações
aparecem, elas nem sempre são imediatamente associadas ao coração.
Dor
ou desconforto no peito, falta de ar fora do habitual, desmaio e palpitações
acompanhadas de mal-estar são sinais que precisam ser avaliados. A presença
desses sintomas não significa necessariamente uma doença cardíaca, mas não deve
ser ignorada. Dor no peito intensa ou persistente, especialmente quando
acompanhada de falta de ar, suor frio ou sensação de desmaio, exige atendimento
de emergência.
A
prevenção também passa por não normalizar mudanças importantes no funcionamento
do organismo. Pessoas que percebem queda inexplicada na tolerância aos
exercícios ou sintomas recorrentes devem procurar avaliação médica, em vez de
atribuí-los automaticamente ao estresse, ao cansaço ou à falta de
condicionamento físico.
Check-up
antes de atividades físicas intensas
A
prática de atividades físicas é importante para a saúde, mas quem pretende
iniciar exercícios mais extenuantes ou aumentar significativamente a
intensidade dos treinos deve passar por uma avaliação médica. A orientação
ganha relevância diante da popularização de modalidades como a corrida entre
atletas jovens.
O
check-up permite avaliar o histórico pessoal e familiar, investigar eventuais
sintomas e determinar se há necessidade de exames complementares. A indicação
dos exames deve considerar as condições individuais e o tipo de atividade
física que será praticada.
Prevenção
não tem idade para começar
A
adoção de hábitos saudáveis e o acompanhamento médico ajudam a identificar e
controlar fatores de risco antes que eles provoquem consequências mais graves.
Para isso, é importante conhecer o histórico familiar, realizar avaliações de
saúde conforme a orientação profissional e não interromper tratamentos
prescritos quando há alterações como hipertensão, diabetes ou colesterol
elevado.
A
recomendação não é transformar a rotina em uma busca constante por doenças, mas
incorporar o cuidado cardiovascular à vida cotidiana. A prevenção começa com
escolhas possíveis e com a compreensão de que a saúde do coração é construída
ao longo do tempo.
“O
mais importante é não associar prevenção apenas à idade ou à presença de
sintomas. Quanto mais cedo os fatores de risco são identificados, maiores são
as oportunidades de controlá-los e reduzir a probabilidade de complicações no
futuro”, conclui o especialista.