Durante o mês de maio, a campanha Maio Roxo chama atenção para uma doença neurológica extremamente comum, incapacitante e ainda muito subdiagnosticada: a enxaqueca. Milhões de brasileiros convivem diariamente com crises que comprometem produtividade, vida social, desempenho profissional e qualidade de vida. Mesmo assim, muitos pacientes passam anos sem receber o diagnóstico correto.
Segundo dados internacionais, cerca de 31 milhões de brasileiros sofrem com enxaqueca. Apesar da alta prevalência, o diagnóstico frequentemente demora anos. Muitos pacientes ainda escutam frases como “isso é só uma dor de cabeça”, quando, na realidade, trata-se de uma condição neurológica complexa e potencialmente incapacitante.
“A enxaqueca não é apenas uma dor de cabeça forte. É uma doença neurológica que altera o funcionamento cerebral e pode impactar profundamente sono, concentração, memória, humor, relações sociais e capacidade de trabalho”, explica o especialista em dor Carlos Gropen.
As crises costumam apresentar dor pulsátil, de moderada a forte intensidade, frequentemente em um dos lados da cabeça, associada a náuseas, vômitos, sensibilidade à luz, aos sons e, em alguns casos, alterações visuais ou sensoriais chamadas de aura.
Uma curiosidade pouco conhecida é que, durante uma crise de enxaqueca, o cérebro entra em um estado de hiperexcitabilidade neurológica. Isso ajuda a explicar por que estímulos considerados normais para outras pessoas, como claridade, barulho ou determinados odores, tornam-se quase insuportáveis para quem está em crise.
Outra observação importante é que a enxaqueca está entre as doenças que mais causam incapacidade em adultos jovens no mundo. Ou seja, ela afeta justamente uma fase da vida marcada por trabalho, estudos, produtividade e responsabilidades familiares, ampliando seu impacto social e econômico.
Além da predisposição genética, diversos fatores podem funcionar como gatilhos para as crises. Alterações no sono, jejum prolongado, alimentação irregular, estresse emocional, oscilações hormonais e consumo de álcool estão entre os desencadeantes mais frequentes em pessoas suscetíveis.
“O cérebro do paciente com enxaqueca costuma apresentar uma sensibilidade aumentada a mudanças internas e externas. Pequenas alterações na rotina podem desencadear crises. Por isso, regularidade no sono, alimentação adequada e estratégias de controle do estresse fazem parte do tratamento”, destaca Carlos Gropen.
Outro problema frequente é a automedicação. O uso excessivo de analgésicos pode transformar uma dor episódica em uma dor crônica, gerando a chamada cefaleia por abuso de medicação, além de aumentar riscos gástricos, renais e cardiovasculares.
Dores de cabeça frequentes nunca devem ser banalizadas, principalmente quando ocorrem mais de uma vez por semana ou começam a interferir nas atividades diárias. Mudanças no padrão habitual da dor, dores súbitas e intensas, febre, rigidez na nuca ou sintomas neurológicos associados exigem avaliação médica imediata.
Nos últimos anos, houve avanço significativo no tratamento da enxaqueca. Além das medicações tradicionais, hoje existem terapias mais modernas e individualizadas, como anticorpos monoclonais anti-CGRP, toxina botulínica para casos crônicos, medicamentos específicos para crises agudas, além de estratégias não farmacológicas, neuromodulação e mudanças estruturadas no estilo de vida.
“O tratamento precisa ser individualizado. Avaliamos frequência das crises, intensidade, impacto funcional e perfil de cada paciente. Atualmente conseguimos oferecer muito mais controle, redução das crises e melhora real da qualidade de vida”, afirma Carlos Gropen.
A campanha Maio Roxo reforça um alerta importante: dores de cabeça frequentes não devem ser normalizadas. Informação, diagnóstico precoce e acompanhamento especializado são fundamentais para evitar a cronificação da dor e reduzir os impactos da enxaqueca na vida dos pacientes.
Dr. Carlos Gropen – Especialista em dor – IBDOR