Humberto Tobé, Fátima Christine
Ação de atendimento odontológico com prioridade para vítimas de violência doméstica e sexual mostra uma face menos conhecida do cuidado oferecido pelo SUS às mulheres
Quando se fala em saúde da mulher, o primeiro pensamento costuma ir para a mamografia, o preventivo e o pré-natal. Mas o cuidado vai além. Em Pompeia, cidade vizinha a Marília, uma ação recente lembrou isso de forma concreta. Entre 20 e 30 de julho, uma carreta odontológica da mulher atendeu de graça, no estacionamento da Arena Esportes e Eventos, mulheres e seus dependentes de até 17 anos, com prioridade para vítimas de violência doméstica, violência sexual e pessoas em situação de vulnerabilidade social.
A escolha da prioridade não é casual. A violência contra a mulher deixa marcas que nem sempre aparecem nos boletins de ocorrência. Lesões no rosto e na boca são comuns em agressões, e dentes perdidos ou quebrados afetam a alimentação, a fala, a autoestima e até as chances de conseguir um emprego. Recuperar o sorriso faz parte de reconstruir a vida.
O SUS tem um papel central nesse caminho. Muitas vezes, é na unidade de saúde que a mulher em situação de violência procura ajuda pela primeira vez, mesmo antes de buscar a polícia. Por isso, a legislação federal organiza esse atendimento. Desde 2013, a Lei 12.845 obriga os hospitais do SUS a oferecer atendimento imediato e integral a vítimas de violência sexual, com cuidados médicos, apoio psicológico, prevenção de infecções sexualmente transmissíveis e de gravidez. Os casos de violência atendidos nos serviços de saúde também são de notificação obrigatória, o que ajuda o poder público a enxergar o problema e planejar a proteção.
A saúde bucal, por sua vez, é parte do SUS desde a sua criação e ganhou força de lei em 2023, quando a Política Nacional de Saúde Bucal, o Brasil Sorridente, foi inscrita na Lei Orgânica da Saúde. Com isso, o atendimento odontológico na atenção primária e nos Centros de Especialidades Odontológicas passou a ser uma obrigação permanente do sistema, e não apenas um programa de governo.
Para as mulheres de Pompeia e das cidades do entorno de Marília, a rede de cuidado começa na atenção primária, com unidades como a USF Flávio Faria Jordão e a UBS Valdir Alves Pereira. É ali que acontecem o pré-natal, a coleta do preventivo, o pedido de mamografia e, quando necessário, o acolhimento de quem vive uma situação de violência. O Ministério da Saúde ampliou recentemente esse cuidado: desde 2025, a mamografia pelo SUS está garantida a partir dos 40 anos, e o teste molecular de DNA-HPV vem substituindo o Papanicolau no rastreamento do câncer de colo do útero.
Sem uma rede pública preparada, a mulher que sofre violência teria ainda mais dificuldade para encontrar ajuda. Tratamentos odontológicos e psicológicos, quando pagos, estão fora do alcance de muitas famílias, justamente as mais vulneráveis. A ação de Pompeia mostra que o SUS pode olhar para a mulher por inteiro: o corpo, a saúde mental e a dignidade.