Obra apresentada na 28ª Bienal do Livro propõe
transformar o debate sobre inclusão em ações práticas de acessibilidade e
adaptação de ambientes
O Brasil tem 2,4 milhões de pessoas diagnosticadas com
Transtorno do Espectro Autista (TEA), o equivalente a 1,2% da população. Os
dados são do Censo 2022, primeira edição da pesquisa do Instituto Brasileiro de
Geografia e Estatística (IBGE) a investigar o diagnóstico de autismo no país.
Entre os homens, são aproximadamente 1,44 milhão de pessoas; entre as mulheres,
960 mil.
Em meio ao avanço das discussões sobre diagnóstico,
neurodiversidade e inclusão, a psicóloga e neuropsicóloga Daniella Fontes
apresentou, durante a 28ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo, a obra “TEA
– Tecnologia Humana de Acesso”, publicada pela Editora Leader.
O livro parte de uma questão que ultrapassa o
reconhecimento do transtorno: depois de compreender o que é o autismo, como
transformar esse conhecimento em ambientes realmente mais acessíveis para
pessoas dentro do espectro?
Segundo Daniella, embora a inclusão esteja cada vez mais
presente no debate público, ainda existe uma distância entre o discurso e as
adaptações encontradas na vida cotidiana.
“Criar acessibilidade vai muito além de seguir uma
legislação. É preciso desenvolver consciência sobre essas necessidades para que
a inclusão seja efetiva”, afirma.
Da informação à inclusão prática
A proposta da publicação é traduzir conceitos relacionados
ao TEA e apresentar reflexões e orientações que possam ajudar na organização de
ambientes e na compreensão das necessidades de pessoas autistas.
Para a autora, conhecer o transtorno é apenas uma etapa. O
desafio seguinte está em estabelecer condições para que pessoas
neurodivergentes possam frequentar ambientes sociais, profissionais,
educacionais e familiares com maior acolhimento e autonomia.
“Falar sobre TEA já é algo mais presente. A questão é: o
que fazemos a partir desse conhecimento? Como tornamos um ambiente mais
acolhedor e criamos condições para que essas pessoas tenham acesso aos mesmos
espaços?”, questiona.
Nesse sentido, o livro busca aproximar a discussão sobre
acessibilidade da rotina, mostrando que pequenas mudanças na organização
ambiental e na maneira como as pessoas são recebidas também fazem parte de uma
inclusão efetiva.
Diagnóstico também chega à vida adulta
A discussão não está restrita à infância. Daniella chama
atenção para adultos que passaram anos desenvolvendo estratégias próprias para
lidar com dificuldades sociais, emocionais ou sensoriais sem compreender que
determinadas características poderiam estar relacionadas ao espectro autista.
Para a neuropsicóloga, o diagnóstico ou a identificação
dessas características na vida adulta pode ajudar algumas pessoas a
compreenderem melhor a própria trajetória e a procurarem suporte adequado.
“É importante que a pessoa consiga se reconhecer e entender
o que faz parte das características dela e o que pode estar relacionado ao
transtorno. Isso pode trazer respostas para dificuldades enfrentadas durante
muitos anos”, explica.
Entre os aspectos que merecem atenção estão relacionamentos
afetivos, convivência profissional, interação social e episódios de esgotamento
associados à necessidade constante de adaptação.
A especialista cita ainda o chamado burnout autista, termo
utilizado para descrever quadros de esgotamento físico e emocional que podem
ocorrer após períodos prolongados de sobrecarga e esforço para lidar com
demandas incompatíveis com as necessidades individuais.
Saúde mental também faz parte da inclusão
Com atuação em avaliação neuropsicológica e psicoterapia,
Daniella acompanha adultos dentro do espectro e observa que inclusão e saúde
mental não devem ser tratadas como questões separadas.
No ambiente de trabalho, nas relações pessoais ou na vida
social, dificuldades de comunicação e adaptação podem gerar impactos emocionais
importantes quando não existe compreensão sobre as particularidades de cada
pessoa.
“Ter conhecimento é um caminho para que a pessoa possa
buscar o auxílio de que precisa. O essencial é promover saúde mental”, afirma.
A proposta de “TEA – Tecnologia Humana de Acesso”,
segundo a autora, é justamente deslocar a discussão do campo exclusivamente
conceitual para a realidade cotidiana.
Mais do que reconhecer a existência do transtorno, Daniella
defende que o próximo passo do debate sobre autismo passa pela construção de
espaços preparados para diferentes necessidades.
“A inclusão precisa ser muito mais do que discurso. Ela
precisa chegar ao nosso dia a dia e se tornar algo natural”, conclui.
Fonte:
Daniella Fontes – Psicóloga e Neuropsicóloga
CRP-MS 14/04392-5
Daniella Coelho Porfirio Fontes é psicóloga, neuropsicóloga
e escritora, com atuação nas áreas clínica, pericial e educacional. É
especialista em Neurociências e Comportamento e desenvolve trabalhos
relacionados à avaliação neuropsicológica, neurodesenvolvimento e saúde mental.