Enquanto a polêmica sobre implantes hormonais cresce nas redes sociais e mobiliza entidades médicas, especialista explica por que o tratamento não deve ser confundido com promessas de emagrecimento, rejuvenescimento e performance

Poucos tratamentos médicos se tornaram tão populares, e tão controversos, quanto os implantes hormonais. Nos últimos anos, o procedimento ganhou espaço nas redes sociais embalado por promessas sedutoras: emagrecimento acelerado, ganho de massa muscular, melhora da libido, mais disposição e até rejuvenescimento. O apelido “chip da beleza” ajudou a transformar a terapia em fenômeno de marketing. Agora, porém, o tema está no centro de uma disputa que envolve médicos, sociedades científicas e pacientes.

Para o médico Diogo Viana, anestesiologista, mestrando em Ginecologia pela UNIFESP e vice-presidente da Sociedade Brasileira de Medicina da Obesidade (SBEMO), o debate atual tem sido marcado por exageros dos dois lados.

“Implante hormonal é apenas uma via de administração de hormônios. Não é milagre, não é moda e também não é um vilão. O problema está no uso inadequado e nas promessas que passaram a ser vendidas ao redor dele”, afirma.

Segundo o especialista, a popularização do termo “chip da beleza” ajudou a criar uma percepção distorcida sobre o tratamento. Na prática, explica ele, não existe nenhum chip. O que existe são implantes de liberação lenta utilizados há décadas na medicina para situações específicas e bem definidas.

“O nome já nasce errado. Não é um chip e não foi criado para entregar resultados estéticos. Quando o tratamento passa a ser vendido como solução para emagrecer, ganhar músculos ou rejuvenescer, a conversa deixa de ser médica e passa a ser comercial”, diz.

A principal preocupação, segundo Viana, é que pacientes acabem confundindo tratamento hormonal com fórmulas de transformação corporal. Ele destaca que não existe hormônio capaz de produzir, sozinho, o corpo vendido por muitos anúncios nas redes sociais.

“Não há evidência científica que justifique implantes hormonais como estratégia de emagrecimento. O que existe, em alguns casos, são usos inadequados de hormônios em doses muito acima das consideradas fisiológicas, o que pode trazer riscos importantes para a saúde”, afirma.

Ao mesmo tempo em que critica a banalização do tratamento, o médico também faz um alerta sobre outro movimento que considera preocupante: a demonização dos implantes hormonais.

“Existe uma parcela de pacientes que realmente se beneficia dessa via de administração. Quando todo o debate se concentra apenas no aspecto estético, essas indicações legítimas acabam desaparecendo da discussão”, explica.

Entre os casos em que os implantes podem ser considerados estão mulheres com menopausa precoce, insuficiência ovariana prematura, doenças ginecológicas específicas ou pacientes que não conseguem utilizar outras formas de reposição hormonal. Ainda assim, o especialista ressalta que o implante raramente é a primeira opção terapêutica.

“Na maioria das situações, existem alternativas que costumam ser avaliadas antes, como medicamentos orais, géis, adesivos ou dispositivos hormonais. O implante normalmente entra quando essas estratégias não funcionaram ou não foram bem toleradas”, afirma.

Para quem pensa em iniciar o tratamento, o médico recomenda cautela e senso crítico. A orientação é desconfiar de promessas de estética, longevidade ou performance física e buscar profissionais que expliquem com clareza os benefícios, riscos e objetivos da terapia.

“Se alguém precisa convencer você de que o implante vai mudar sua vida, vale acender um sinal de alerta. Tratamento sério não depende de marketing. Depende de indicação médica”, conclui.

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