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Especialista explica como identificar conteúdos criados por inteligência artificial antes de acreditar neles

Em poucos segundos, um vídeo pode atravessar o planeta, acumular milhões de visualizações e provocar reações imediatas nas redes sociais. O problema é que, cada vez mais, esses vídeos mostram situações que nunca aconteceram.

Nos últimos anos, conteúdos criados por inteligência artificial passaram a reproduzir rostos, vozes e gestos humanos com um nível de realismo capaz de enganar até usuários atentos. Em um ambiente digital acelerado, onde a verificação costuma vir depois do compartilhamento, esse tipo de tecnologia se tornou um terreno fértil para a desinformação.

Alguns exemplos famosos ilustram o fenômeno. Durante a guerra entre Rússia e Ucrânia, um vídeo manipulado mostrou o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky supostamente pedindo rendição aos soldados. O conteúdo era falso, mas circulou rapidamente nas redes antes de ser desmentido. Em outro episódio, um deepfake do CEO da Nvidia, Jensen Huang, foi usado em uma transmissão fraudulenta para promover um golpe envolvendo criptomoedas.

Em contextos de tensão geopolítica, como a escalada recente envolvendo Irã, Israel e Estados Unidos, especialistas alertam que vídeos manipulados podem surgir para influenciar a opinião pública ou alimentar narrativas políticas.

Segundo levantamento publicado pela DeepStrike, o número de deepfakes disponíveis na internet cresceu de cerca de 500 mil em 2023 para uma projeção de mais de 8 milhões em 2025, enquanto fraudes envolvendo esse tipo de tecnologia aumentaram 3.000% no mesmo período. O estudo também mostra que apenas 24,5% das pessoas conseguem identificar corretamente vídeos falsos quando eles têm alta qualidade.

Para o diretor criativo e estrategista digital Náthan Ximenes, fundador da NTX Group, a evolução da tecnologia exige uma nova postura do público diante das imagens que circulam na internet. “Durante muito tempo acreditamos que vídeo era prova. Com a inteligência artificial, isso mudou. Hoje a imagem pode ser produzida com facilidade e circular antes de qualquer verificação”.

Diante desse cenário, aprender a reconhecer possíveis sinais de manipulação tornou-se uma habilidade essencial para quem consome informação nas redes sociais. Embora os sistemas de inteligência artificial estejam cada vez mais sofisticados, Ximenes aponta que ainda existem indícios técnicos que podem ajudar a identificar vídeos gerados artificialmente.

Um dos sinais mais comuns está na sincronização entre voz e movimento da boca. Em muitos deepfakes, os lábios não acompanham perfeitamente as palavras ou apresentam pequenos atrasos. Outro ponto de atenção são os olhos e as expressões faciais, que podem parecer rígidos ou repetitivos, já que reproduzir microexpressões humanas ainda é um desafio para muitos modelos de geração de vídeo.

Também vale observar detalhes do ambiente, como mudanças sutis de iluminação no rosto, bordas do cabelo levemente distorcidas ou sombras que não correspondem ao cenário. Em alguns casos, a própria qualidade do áudio pode levantar suspeitas. Vozes geradas por inteligência artificial tendem a apresentar entonação uniforme, com menos pausas naturais, respiração ou variações emocionais.

Para Náthan, o público precisa desenvolver um olhar mais crítico diante do conteúdo digital. “A tecnologia evoluiu muito rápido e tornou possível produzir vídeos extremamente convincentes em poucos minutos. Por isso, a checagem da fonte e do contexto se torna tão importante quanto observar os detalhes técnicos do vídeo”, afirma.

Outro cuidado essencial é verificar a origem do conteúdo. Vídeos divulgados por perfis desconhecidos, sem referência de data, local ou fonte confiável, merecem atenção redobrada. Em muitos casos, uma busca rápida por notícias ou pelos canais oficiais da pessoa citada já é suficiente para confirmar se aquela informação realmente aconteceu.

Em um ambiente digital onde imagens podem ser fabricadas com facilidade, especialistas afirmam que a chamada alfabetização midiática passa a ser tão importante quanto saber utilizar as próprias tecnologias. Mais do que nunca, ver deixou de ser garantia de verdade.

Como resume Ximenes: “A inteligência artificial abriu possibilidades incríveis para a produção audiovisual, mas também trouxe um novo desafio. Hoje, antes de acreditar em um vídeo, precisamos aprender a perguntar se ele realmente aconteceu”.

 

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