Empresários recorrem à diversificação de negócios para proteger receita e ampliar estabilidade
A provocação aparece com frequência em cursos de empreendedorismo e nas redes sociais: quem depende de apenas uma fonte de renda, na prática, pode não ter nenhuma. A frase costuma circular no universo dos coaches financeiros, mas a discussão por trás dela vem ganhando espaço também entre empresários e investidores.
Com juros ainda elevados e crédito mais seletivo, empresas e investidores passaram a discutir com mais atenção estratégias de proteção contra oscilações de mercado. Atualmente a diversificação de atividades e fontes de receita tem se consolidado como um caminho para reduzir exposição a ciclos econômicos.
No Brasil, o movimento aparece também na estruturação de novos negócios. Dados do Sebrae e do IBGE, dos últimos anos, indicam que o Brasil já ultrapassou 14 milhões de microempreendedores individuais formalizados, muitos com mais de uma atividade econômica cadastrada. A multiplicidade de frentes reflete uma busca crescente por estabilidade financeira em um ambiente de mudanças rápidas.
A lógica não é nova para quem acompanha o mercado financeiro. A diversificação sempre foi uma recomendação clássica para investidores que buscam reduzir riscos. O que se observa agora é a aplicação desse mesmo princípio no universo empresarial.
Para o empresário Marcos Koenigkan, que estruturou negócios em segmentos diferentes ao longo da carreira, depender de uma única atividade pode aumentar a vulnerabilidade diante de mudanças econômicas. “Mercados passam por ciclos naturais de expansão e retração. Quando toda a receita depende de um único setor, qualquer mudança mais brusca pode impactar diretamente a operação”, afirma.
Ao longo da trajetória, Koenigkan construiu um portfólio que reúne iniciativas em diferentes frentes da economia, com atuação que combina ativos tradicionais e modelos de negócio mais recentes. Entre elas estão o Catálogo das Artes, plataforma voltada à precificação e pesquisa no mercado de arte e antiguidades, empresas ligadas ao setor imobiliário, como a LK Engenharia e a MK Participações, além de operações no segmento de self storage, como Show Self Storage, You Box e Brasília Self Storage. Também lidera a expansão do Clube das Permutas, rede que opera com foco em inteligência de troca e otimização de ativos empresariais, ampliando a eficiência financeira de empresas por meio de crédito permutável. O empresário ainda integra a rede Mercado & Opinião, que reúne lideranças empresariais de diferentes setores.
Segundo ele, a diversificação não significa necessariamente multiplicar projetos sem critério, mas identificar mercados com dinâmicas diferentes entre si. “O importante é construir negócios que tenham fundamentos próprios. Quando um setor atravessa um momento mais desafiador, outro pode estar em expansão. Isso ajuda a equilibrar a operação como um todo”, diz.
A estratégia tem sido observada em diferentes segmentos da economia. No setor imobiliário, por exemplo, atividades tradicionais como incorporação costumam responder de forma direta às variações de juros e crédito. Já modelos mais recentes, como self storage, vêm crescendo impulsionados por transformações urbanas, aumento da mobilidade e mudanças no tamanho médio das residências nas grandes cidades.
Outro fenômeno que acompanha esse movimento é a criação de estruturas empresariais mais amplas, muitas vezes organizadas sob holdings que reúnem diferentes operações. Nesse formato, as empresas mantêm autonomia operacional, mas compartilham visão estratégica, governança e rede de relacionamentos.
Para Koenigkan, esse modelo reflete uma mudança na forma como empresários encaram crescimento e gestão de risco. “Nem sempre o valor de um negócio está apenas no capital investido ou na tecnologia utilizada. Muitas vezes ele nasce da combinação entre experiência acumulada, leitura de mercado e conexões construídas ao longo do tempo”, afirma.
Vale ressaltar, porém, que diversificar exige planejamento e capacidade de execução. Abrir diferentes frentes sem estratégia clara pode gerar dispersão de recursos e aumentar riscos operacionais.
Com a economia em transformações constantes, a discussão sobre múltiplas fontes de receita deve permanecer no centro das decisões empresariais. “Para muitos líderes de negócios, a questão já não é mais se vale a pena diversificar. O desafio passou a ser como estruturar essa estratégia de forma sustentável ao longo do tempo”, conclui Koenigkan.