(Da esquerda para direita, Dr. Vlassios, Thays e Dr. Paulo Noronha)

Especialistas explicam o que é esperado após a gestação, como a alimentação influencia a saúde dos fios e quais sinais merecem atenção

Ver mais cabelo na escova, no travesseiro ou no ralo do banheiro costuma assustar muitas mulheres nos meses seguintes ao nascimento do bebê. A cena é comum no puerpério e frequentemente gera dúvidas sobre a saúde da mãe e a necessidade de tratamento.

Embora a queda seja um dos relatos mais frequentes após a gestação, ela nem sempre indica um problema. Na maior parte dos casos, trata-se de uma resposta natural do organismo às mudanças hormonais que acontecem depois do parto.

Segundo o ginecologista e obstetra Paulo Noronha, esse quadro é conhecido como eflúvio telógeno pós-parto. “Durante a gravidez, os níveis hormonais elevados fazem com que muitos fios permaneçam por mais tempo na fase de crescimento. Depois do nascimento do bebê, com a queda dos hormônios da gestação, especialmente do estrogênio, esses fios entram ao mesmo tempo na fase de queda. Por isso, a mulher percebe um volume maior de cabelo na escova, no banho ou no travesseiro”, explica.

A perda dos fios costuma aparecer entre o segundo e o quarto mês após o parto, sendo mais perceptível por volta do terceiro mês.

De acordo com a Associação Americana de Dermatologia, a recuperação acontece de forma gradual e a maioria das mulheres volta a ter a densidade capilar habitual ao longo do primeiro ano após o nascimento do bebê.

Alimentação faz diferença

Se a queda faz parte de um processo fisiológico, a alimentação pode influenciar diretamente a intensidade e o tempo de recuperação.

A nutricionista Thays Pomini explica que o crescimento capilar depende de uma oferta constante de nutrientes, justamente em um período em que o organismo feminino enfrenta uma demanda elevada.

“O corpo passa por uma fase de grande exigência metabólica. Quando a alimentação não acompanha essa necessidade, ele prioriza funções consideradas essenciais e os fios acabam ficando em segundo plano”, afirma.

Entre os nutrientes mais importantes para a saúde capilar estão proteínas, ferro, zinco, biotina, vitaminas do complexo B e vitamina D.

O ferro merece atenção especial. Sua deficiência está entre as causas mais comuns de queda de cabelo em mulheres no pós-parto, principalmente quando há anemia associada. Já o zinco participa da regeneração celular e da produção de proteínas, enquanto a biotina atua na formação da queratina, principal componente dos fios.
Baixos níveis de vitamina D e ômega-3 também são frequentes nesse período e podem contribuir para uma queda mais intensa ou prolongada.

Amamentação aumenta as necessidades nutricionais

A lactação exige ainda mais do organismo. Produzir leite demanda energia, proteínas, vitaminas e minerais em quantidades maiores.”Uma mulher que está amamentando precisa de um aporte nutricional adequado. Quando isso não acontece, o organismo direciona recursos para a produção do leite e outras funções prioritárias, o que pode impactar a saúde capilar”, explica Thays.

A especialista destaca alimentos que ajudam nesse processo, como ovos, carnes magras e peixes, fontes importantes de proteína. Vegetais verde-escuros, como couve, espinafre e brócolis, fornecem ferro e folato. Sementes de abóbora e girassol concentram zinco e biotina. Sardinha e salmão oferecem ômega-3 e vitamina D.

Frutas ricas em vitamina C, como acerola, laranja, kiwi e morango, ajudam a aumentar a absorção do ferro presente nos vegetais quando consumidas na mesma refeição.

Nem toda queda é igual

Apesar de ser comum, a queda pós-parto tem características próprias. Segundo Paulo Noronha, ela costuma ocorrer de forma difusa, sem criar falhas específicas ou áreas completamente sem cabelo.

“A queda fisiológica acontece de maneira espalhada pelo couro cabeludo e normalmente dura entre três e seis meses. A recuperação costuma ocorrer aos poucos, com retorno progressivo da densidade dos fios”, diz.

Quando a perda persiste além do esperado ou vem acompanhada de outros sintomas, vale investigar.

Entre os sinais de alerta estão falhas localizadas, coceira intensa, dor, descamação, afinamento progressivo dos fios, cansaço excessivo, palidez, alterações de peso ou sintomas relacionados à tireoide.

Nessas situações, podem existir causas associadas, como deficiência de ferro, alterações hormonais, problemas tireoidianos ou diferentes tipos de alopecia.

O que pode ajudar na recuperação

Para o especialista em transplante capilar, Vlassios Marangos, o primeiro passo é entender que a queda pós-parto, na maioria das vezes, não representa uma perda definitiva dos fios.

“A mulher precisa saber que esse processo costuma ser temporário e faz parte das mudanças naturais do organismo após a gestação. O mais importante é avaliar se a queda está dentro do esperado ou se existe algum fator associado que esteja agravando o quadro”, afirma.

Segundo ele, exames laboratoriais podem ser necessários para identificar possíveis deficiências nutricionais ou alterações hormonais que dificultam a recuperação.

“A correção de anemia, deficiência de ferro, vitamina D ou outras alterações metabólicas costuma ser mais importante do que buscar soluções rápidas. Cada caso deve ser avaliado individualmente para que o tratamento seja direcionado à causa do problema”, explica.

Marangos também reforça que não existe uma fórmula capaz de impedir completamente a queda fisiológica dos fios.

“Não há como bloquear um processo que faz parte da adaptação natural do corpo depois da gravidez. O foco deve estar em oferecer as condições adequadas para que o cabelo volte a crescer de forma saudável”, recomenda.

Dietas radicais podem agravar o problema

A busca por recuperar o peso anterior à gravidez leva muitas mulheres a adotarem dietas restritivas logo após o parto. Segundo Thays Pomini, essa decisão pode trazer consequências para a saúde e prolongar a queda capilar.

“Dietas muito restritivas reduzem a oferta de nutrientes essenciais para a recuperação do organismo e para a saúde dos fios. Durante a amamentação, elas também podem comprometer a produção de leite”, alerta.

(Fotos: Divulgação)

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