Pulmões: uma pergunta sobre ter filhos que se transforma em uma reflexão sobre a vida
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Em cartaz no Teatro Fashion Mall, espetáculo de Duncan Macmillan coloca um casal diante de uma das decisões mais complexas da vida: ter ou não ter um filho

Em um mundo marcado por incertezas ambientais, políticas e sociais, decidir ter um filho deixou de ser, para muitas pessoas, apenas uma etapa natural da vida. Tornou-se uma escolha que envolve medo, desejo, responsabilidade e uma série de perguntas para as quais nem sempre existem respostas. É justamente a partir desse dilema que se constrói “Pulmões”, espetáculo atualmente em cartaz no Teatro Fashion Mall, no Rio de Janeiro.

Escrita pelo dramaturgo britânico Duncan Macmillan, a peça acompanha um casal que se ama, mas se vê diante de uma pergunta aparentemente simples: “Vamos ter um filho?”. A partir dela, a relação começa a revelar conflitos, inseguranças, expectativas e diferentes maneiras de enxergar o futuro.

Mais do que discutir maternidade e paternidade, “Pulmões” amplia a conversa para questões que atravessam a sociedade contemporânea. Crise climática, responsabilidade ambiental, padrões familiares, expectativas sociais e o medo de repetir comportamentos dos próprios pais aparecem no percurso dos personagens.

A montagem também questiona a ideia de que ter filhos seria simplesmente uma consequência natural do casamento. Durante gerações, existiu uma espécie de roteiro social: namorar, casar, ter filhos e formar uma família. Hoje, porém, cada vez mais pessoas se permitem interromper esse roteiro e perguntar se realmente desejam seguir esse caminho.

Essa liberdade de escolha também revela desigualdades. Afinal, nem todas as pessoas possuem as mesmas condições para decidir sobre maternidade e paternidade. Para alguns, a pergunta é uma escolha; para outros, questões econômicas, sociais e culturais tornam essa possibilidade muito mais complexa.

Quando o amor não resolve tudo

Um dos aspectos mais fortes do espetáculo é justamente a recusa em romantizar a relação. Os personagens se amam, mas isso não significa que saibam conversar, que concordem sobre o futuro ou que consigam evitar conflitos.

“Pulmões” parte da ideia de que amar é importante, mas não é suficiente para resolver todos os problemas. O relacionamento é colocado diante das dificuldades concretas da vida, mostrando que carinho, desejo e compromisso não eliminam dúvidas, frustrações e diferenças.

A frase escolhida para sintetizar o espetáculo resume essa perspectiva: “Amar é lindo, o difícil é o resto.”

Uma vida inteira em pouco mais de uma hora

A estrutura da peça contribui para tornar a experiência ainda mais intensa. O tempo passa rapidamente entre as cenas, permitindo que o público acompanhe diferentes momentos da trajetória do casal.

Sem grandes cenários ou excessos, a força está na palavra, no corpo dos atores e na relação construída diante da plateia. Uma conversa sobre ter um filho se transforma, pouco a pouco, em uma espécie de retrato de uma vida inteira.

E é justamente aí que o espetáculo ganha outra dimensão.

A pergunta deixa de ser apenas “ter ou não ter filhos?” e passa a ser: “O que estamos fazendo com a nossa própria vida?”

A maternidade também entra em debate

A peça ainda provoca uma reflexão sobre desejos que muitas vezes são apresentados como naturais, especialmente quando se fala de maternidade.

A personagem questiona se o desejo de ser mãe nasceu realmente dela ou se foi construído desde a infância por meio de expectativas sociais, culturais e familiares.

A pergunta é incômoda, mas necessária: aquilo que desejamos é realmente nosso ou aprendemos a desejar?

Ao colocar esse questionamento no centro da narrativa, “Pulmões” abre espaço para diferentes experiências e permite que cada espectador reconheça suas próprias referências familiares.

Um espetáculo que não entrega respostas

“Pulmões” não pretende dizer ao público se ter filhos é certo ou errado. Tampouco apresenta uma fórmula para construir uma família.

A proposta é mais provocadora: colocar uma questão diante da plateia e permitir que cada pessoa encontre suas próprias respostas.

Por isso, o espetáculo dialoga tanto com diferentes gerações. Para quem cresceu em uma época em que ter filhos parecia uma obrigação social, a discussão pode provocar um reencontro com escolhas feitas no passado. Para as novas gerações, pode representar justamente o reconhecimento de uma dúvida que passou a ser discutida com mais liberdade.

No palco, duas pessoas discutem sobre o futuro. Na plateia, cada espectador acaba sendo convidado a olhar para o próprio passado, presente e futuro.

O filho é apenas o ponto de partida

A grande força de “Pulmões” está em transformar uma pergunta simples em uma reflexão muito maior.

Ter um filho significa assumir uma responsabilidade que não termina no nascimento. Envolve educação, diálogo, respeito à individualidade e consciência de que cada pessoa criada também fará parte de um mundo coletivo.

No fim, o espetáculo fala menos sobre a decisão de ter filhos e mais sobre as escolhas que fazemos, o tempo que passa e a responsabilidade de viver de forma consciente.

Em pouco mais de uma hora, “Pulmões” faz o público acompanhar uma vida inteira e sair do teatro com uma pergunta que talvez seja ainda mais urgente do que a inicial:

Estamos vivendo nossas vidas por escolha ou simplesmente seguindo o roteiro que esperavam de nós?

“Pulmões” está em cartaz no Teatro Fashion Mall, em São Conrado, no Rio de Janeiro.

Teatro Fashion Mall recebe o espetáculo, com sessões aos sábados, sempre às 21h00

Com   Giulia Grandis e Thiago Mello Até o dia 29 de agosto

Estr. da Gávea, 899 – São Conrado, Rio de Janeiro – RJ, 22610-001

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