Com agentes de IA, os
sistemas de gestão começam a sugerir e executar tarefas dentro das empresas
No SAP Sapphire 2026, em Orlando, uma
demonstração no Agent Lab chamou atenção: criar um agente de inteligência
artificial para uma tarefa específica de negócio, como analisar disputas
financeiras ou configurar um projeto, leva hoje cerca de 15 minutos. Basta
descrever o que se quer em linguagem natural, sem escrever uma linha de código.
O número dá a medida de onde chegaram os sistemas de gestão empresarial, os
ERPs, que por muito tempo serviram para guardar informação e agora começam a
entrar na tomada de decisão.
Durante décadas, o ERP teve uma função clara.
Registrava transações e mantinha finanças, estoque, produção e RH trabalhando
sobre a mesma base de dados. Ficava nos bastidores, sem chamar atenção. A IA
generativa começou a mexer nesse arranjo, e os agentes autônomos aceleraram o
movimento. O Joule, assistente da SAP lançado em 2023 como um copiloto de
conversa, hoje funciona como uma camada de agentes especializados, que leem o
contexto do negócio, cruzam dados de áreas diferentes e conduzem processos
inteiros, com uma pessoa revisando as etapas mais sensíveis.
Isso muda a rotina de quem usa o sistema. Antes,
o funcionário abria telas, preenchia campos, lia relatórios e só então decidia
o que fazer. Agora é o próprio sistema que antecipa cenários e recomenda ações,
e em alguns casos já as executa.
Para Roberto Medeiros, CEO da EPI-USE Brasil,
consultoria de implementação SAP, a mudança de mentalidade pesa tanto quanto a
tecnológica. “O ERP sempre foi visto como sistema de apoio, que registra o que
já aconteceu. Agora ele começa a participar do que ainda vai acontecer. Isso
obriga as empresas a pensar em governança, em qualidade de dados e, sobretudo,
no papel das pessoas”, diz.
Autonomia, segundo ele, não significa deixar o
sistema sozinho. “Um agente só decide bem se os dados que consulta forem
confiáveis e se estiver claro até onde vai a automação e em que momento a
pessoa precisa assumir. A ideia é colocar o julgamento humano onde ele faz mais
diferença”, afirma.
A leitura se aproxima do que a própria SAP levou
a Orlando. No palco, o CEO global Christian Klein chegou a questionar se as
empresas de software continuarão sendo empresas de software. A resposta que ele
sugere passa por plataformas que, além de apoiar a operação, assumem parte da
execução dos processos.
Em finanças, suprimentos ou RH, isso se traduz em
agentes que percebem um padrão fora do comum ou um risco se formando antes que
alguém da equipe note. O usuário diz o que precisa, e o sistema se encarrega de
juntar dados e aplicações para entregar o resultado.
Medeiros vê aí o principal cuidado para as
empresas brasileiras que estudam o tema. “Tem empresa achando que é só ligar
uma funcionalidade de IA e esperar o resultado. Não funciona assim. Antes vem o
trabalho menos vistoso, de organizar os dados e entender os processos, e as
equipes precisam ser preparadas para trabalhar junto com essa tecnologia. Quem
fizer isso primeiro vai ter vantagem”, alerta.
Para quem ainda usa o ERP como um grande arquivo
de registros, os 15 minutos da demonstração em Orlando são um bom lembrete de
que a distância entre testar e adotar está ficando cada vez menor.