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*Bruno Gonçalves

Em 2018, a PwC revelou que 73% dos consumidores decidem suas
compras com base na experiência. No entanto, apenas 22% dos líderes de CX
acreditam que superam as expectativas. Esse abismo entre o que as empresas
prometem e o que entregam tem um culpado central: a banalização da palavra
“encantamento”.

O Erro da Tradução

O fetiche brasileiro pelo termo nasceu de um deslize semântico. Em
2011, o livro do Disney Institute chegou ao Brasil como “O Jeito
Disney de Encantar os Clientes”
. No original, porém, o título é “Be
Our Guest: Perfecting the Art of Customer Service”
. A diferença é
vital: enquanto o original foca em aperfeiçoar processos e serviços, a versão
brasileira deslocou o foco para a magia e emoção. O mercado comprou a
“mágica”, mas esqueceu o operacional.

A Pirâmide Invertida

Para entender o erro, devemos olhar para a Pirâmide da Experiência
do Cliente (Gartner). Ela possui uma lógica sequencial e implacável:

  1. Base: Resolver o
    problema do cliente.
  2. Meio: Facilitar a vida
    dele.
  3. Topo: Encantar.

Tentar encantar sem resolver o básico é como tentar colocar a
cereja em um bolo que sequer foi assado. Quando uma empresa foca no topo sem
ter fundação, ela apenas inflaciona a expectativa. E expectativa alta com
entrega mediana é a fórmula perfeita para gerar frustração.

O Custo da Frustração

O impacto de falhar na base é financeiro. Dados mostram que 32%
dos clientes globais (e impressionantes 49% na América Latina) abandonam uma
marca que amam após uma única experiência ruim. O cliente que foi atraído por
uma promessa emocional reage com muito mais agressividade quando encontra
burocracia. A frustração de quem esperava “magia” e recebeu descaso é
corrosiva: destroi a lealdade e custa caro para reverter.

O Mercado da Simplificação

Por que, então, o discurso do encantamento continua tão forte?
Porque encantamento vende mais do que processo. Palestras motivacionais e posts
de LinkedIn preferem o lúdico ao técnico. Simplificar conceitos complexos é
lucrativo, mas produz uma distorção que mantém a energia do mercado focada no
lugar errado.

O Verdadeiro Encantamento

O encantamento não é o vilão, desde que seja a consequência, e não
o ponto de partida. O melhor atendimento, muitas vezes, é aquele que nem
precisa acontecer:

  • É
    o problema que foi evitado por um processo bem desenhado.
  • É
    a jornada sem ruídos, onde o cliente não precisa repetir sua história.

Somente quando a vida do cliente está facilitada e seus problemas
resolvidos é que o “extra” ganha valor de surpresa legítima. Fora
dessa ordem, o encantamento é apenas uma palavra vazia em um slide bonito. E o
cliente sabe a diferença

Por Bruno Gonçalves, palestrante profissional e renomado
especialista em Felicidade Corporativa e Experiência do Cliente

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