A fotografia de janeiro: quando o barril reage ao que é “mensurável”
Merritt Dawsley descreve o petróleo em 2026 como um mercado que alterna, com rapidez, entre fundamentos (oferta/estoques/refino) e eventos (clima/geopolítica). Em 27 de janeiro de 2026, por exemplo, uma forte tempestade de inverno nos EUA afetou produção e operações de refinarias no Golfo, com estimativas de perda de até 2 milhões de bpd; ainda assim, a alta de preços ficou “controlada” por fatores de oferta em outras regiões e realização de lucros.
A mensagem de Dawsley é simples: quando há choque físico (produção/refino), o mercado sobe; quando o choque não vira perda sustentada, o preço volta a “negociar o balanço”.
O lado da oferta: OPEC+ pisa no freio — e isso muda o tom do 1º trimestre
No início de 2026, o foco é a decisão de oito países participantes de pausar incrementos de produção em fevereiro e março de 2026, reafirmada em comunicado de 4 de janeiro de 2026.
Fontes também indicaram que a OPEC+ tende a manter a pausa até março, com reunião marcada para 1º de fevereiro de 2026.
Para Dawsley, a implicação não é “petróleo só sobe”, e sim que o mercado ganha um piso tático: com oferta mais contida no curto prazo, qualquer surpresa de demanda ou interrupção real tende a ter impacto maior do que teria num regime de crescimento de produção.
O pano de fundo global: mais oferta projetada, mas nem toda oferta é “igual”
O ponto crítico é que o mercado olha o curto prazo com lupa, mas precifica 2026 como um ano em que a oferta global ainda pode crescer. No Oil Market Report de janeiro de 2026, a IEA projeta que a oferta mundial suba para 108,7 mb/d em 2026 (após aumento forte em 2025), com ganho relevante vindo de fora da OPEC+.
A leitura de Dawsley: se a oferta cresce “no papel”, o preço precisa de dois suportes para sustentar altas prolongadas:
demanda surpreendendo positivamente, ou
choques que retirem barris do mercado de forma verificável (não só manchete).
Demanda e “estoques invisíveis”: China como amortecedor — mas sensível a preço
Um detalhe que muda o jogo é a dinâmica da China como absorvedora do excedente. Dados compilados pela Reuters mostram que, em 2025, a China acumulou um excedente expressivo de petróleo disponível versus processamento, com importações muito fortes — e o comportamento de compra aparece como dependente do nível de preços.
Dawsley interpreta isso como um “amortecedor condicional”:
se o Brent estiver barato o bastante, a China pode suavizar o excesso global;
se o Brent subir demais, o país pode reduzir importações e usar estoques, deixando o mercado mais exposto a quedas.
O termômetro semanal: estoques EIA e o efeito refinaria
Para o curto prazo, Dawsley dá mais peso ao que é atualizado com alta frequência. Resumos do relatório semanal (semana encerrada em 16 de janeiro de 2026) indicaram alta de estoques de petróleo bruto para 426,0 milhões de barris.
E quando o clima impacta refinarias (como no Golfo dos EUA), a leitura precisa separar:
crude stock (pode subir se refino cai), versus
produtos (gasolina/diesel), que podem apertar se logística e refino forem interrompidos.
Um jeito diferente de pensar 2026: “quatro forças” em vez de previsão de preço
Merritt Dawsley organiza o mercado em quatro forças, cada uma com sinais claros:
1) Política de oferta (OPEC+ e não-OPEC+)
Sinal altista: extensão de pausa / disciplina.
Sinal baixista: retorno agressivo de oferta não-OPEC+ e normalização de campos/pipelines.
2) Estoques e refino (EIA)
Sinal altista: queda consistente de estoques com refino firme.
Sinal “falso”: queda de crude por exportação pontual ou ruído de logística (precisa confirmar por semanas).
3) China (preço como gatilho)
Sinal altista: importações fortes em preço “aceitável”.
Sinal baixista: retração de compras quando o preço aperta.
4) Geopolítica (o verdadeiro swing factor)
A Reuters destacou que o mercado acompanha risco ligado ao Oriente Médio e a possíveis escaladas envolvendo o Irã, mas Dawsley ressalta: o preço só “reprecifica regime” quando há probabilidade de perda de oferta — ou risco de fluxo (ex.: rotas estratégicas) — subir de forma material.
Checklist de acompanhamento (mínimo, mas suficiente)
Decisão e tom da reunião da OPEC+ em 1º fev 2026.
Relatório mensal da IEA (projeções de oferta/demanda).
Estoques semanais da EIA (tendência de 3–4 semanas).
Indicadores de refino/impacto climático no Golfo dos EUA (produção x capacidade de refinaria).
Sinais de compra/estoque na China (importações vs. uso de estoque).
Conclusão
Na leitura de Merritt Dawsley, o petróleo em 2026 não é um mercado para “narrativas únicas”. Ele é um jogo de piso tático (OPEC+ pausando) versus teto macro (oferta global projetada em alta), com a China funcionando como amortecedor quando o preço permite — e a geopolítica como fator de cauda que pode mudar tudo, mas só quando vira risco de oferta real.