IATF avança no Brasil: resultado da estação reprodutiva começa antes do protocolo
Divulgação: Ourofino Saúde Animal

IATF avança no Brasil: resultado da estação reprodutiva começa antes do protocolo

Com a tecnologia cada vez mais disseminada no campo, nutrição, sanidade, escolha do sêmen e execução do manejo ajudam a explicar por que protocolos semelhantes podem gerar resultados diferentes entre propriedades

A inseminação artificial está cada vez mais presente na pecuária brasileira. Dados do INDEX ASBIA 2025 mostram que a técnica chegou a 4.529 municípios, o equivalente a 81,3% das cidades do país, enquanto a Inseminação Artificial em Tempo Fixo (IATF) já alcança cerca de 26% das fêmeas de corte. Com a tecnologia amplamente difundida, uma questão ganha relevância na abertura de mais uma estação reprodutiva: por que propriedades que adotam protocolos semelhantes podem apresentar resultados tão diferentes de prenhez?

Segundo Igor Garcia Motta, médico-veterinário e especialista técnico em Reprodução Animal da Ourofino Saúde Animal, a explicação está no conjunto de fatores que cerca a técnica. A taxa de prenhez não é determinada exclusivamente pelo protocolo hormonal, mas pela interação entre características das fêmeas, fertilidade do touro utilizado e qualidade da própria execução da estratégia reprodutiva.

“Entre os fatores relacionados às fêmeas, destacam-se a condição nutricional, sanitária e a categoria animal. Em relação aos touros, também existem diferenças individuais de fertilidade que precisam ser consideradas na escolha do sêmen. Já entre os fatores relacionados à técnica estão a escolha da estratégia reprodutiva mais adequada para cada sistema, a correta execução do protocolo, o processo de inseminação e a capacitação do inseminador”, explica Garcia.

Na prática, isso significa que uma parte importante do resultado da próxima estação reprodutiva começa a ser construída meses antes da primeira aplicação do protocolo.

A próxima estação começa na desmama

Para Garcia, o preparo das matrizes paridas deve começar ainda na desmama do bezerro da estação anterior. Esse é um momento estratégico para avaliar a condição corporal das fêmeas e definir quais animais demandarão maior atenção para chegar à próxima estação em condições adequadas. Neste momento também é preciso um olhar atento para as novilhas que entrarão na estação de monta, monitorar o peso, idade e definir quando e como será realizado o protocolo de indução de ciclicidade.

A partir dessa avaliação, a propriedade pode adotar estratégias como suplementação nutricional ou direcionar as fêmeas que apresentam maior desafio para áreas com pastagens de melhor qualidade. “O objetivo é trabalhar antecipadamente para que essas matrizes cheguem ao parto com melhor condição corporal e, consequentemente, tenham maior probabilidade de emprenhar durante a estação reprodutiva”, afirma.

O tecido adiposo não é apenas um depósito de energia; ele também é metabolicamente ativo e influencia diretamente a reprodução. Alguns hormônios, são sintetizados a partir do tecido adiposo, um exemplo disso é Leptina que sinaliza ao hipotálamo que há disponibilidade energética suficiente para que a reprodução aconteça. “Por isso, a nutrição não deve ser vista como uma etapa isolada, mas como parte fundamental do planejamento reprodutivo do rebanho”, ressalta Garcia.

Protocolo correto não compensa falhas sanitárias

A condição sanitária também pode comprometer os resultados mesmo quando o protocolo hormonal é realizado corretamente. Algumas enfermidades como: Diarreia Viral Bovina (BVD), Rinotraqueíte Infecciosa Bovina (IBR), Leptospirose, Campilobacteriose, Neosporose, Brucelose merecem atenção.

Essas doenças podem afetar diretamente a eficiência reprodutiva, reduzindo a fertilidade e aumentando a ocorrência de perdas gestacionais, abortos e natimortos. “Um programa reprodutivo eficiente precisa estar associado a um programa sanitário bem estruturado. Existem diversas evidências científicas dos benefícios da vacinação, associada a estratégias de manejo para controlar essas enfermidades e melhorar a eficiência reprodutiva.”, explica o especialista.

Planejamento também interfere no resultado

Além das condições dos animais, a própria operação da IATF exige atenção. Escolha inadequada do produto, erros de dosagem ou falhas no intervalo entre aplicações e inseminação podem comprometer a resposta dos animais.

Como a técnica depende de uma sequência de eventos sincronizados, problemas aparentemente pontuais podem aparecer depois nos índices de prenhez. A logística também entra nessa equação. Falta de produtos ou materiais necessários no momento do manejo e indisponibilidade da equipe são situações capazes de afetar toda a programação.

“Não basta ter um bom protocolo. É preciso garantir que todos os recursos e procedimentos estejam disponíveis e sejam executados corretamente no momento adequado. Dessa forma, toda a estação deve ser planejada antecipadamente. Neste planejamento é essencial definir quais estratégias reprodutivas serão utilizadas, quando os manejos serão realizados, conciliando com a disponibilidade da equipe”, afirma Garcia.

A eficiência não termina na prenhez

Para o especialista, outro erro é avaliar o sucesso da estação apenas pela taxa de prenhez. O acompanhamento deve considerar também as perdas gestacionais, a taxa de nascimento, a taxa de desmame e, ao final do processo, os quilos de bezerro desmamado por vaca exposta.

Analisar os índices separadamente por categoria de fêmeas também ajuda a revelar diferenças de desempenho que podem ficar escondidas na média geral do rebanho e permite direcionar com maior precisão as estratégias de manejo. “Quando acompanhamos esses indicadores de maneira integrada, conseguimos avaliar todo o processo, desde a reprodução até o desmame, e entender de que forma as decisões tomadas ao longo do ciclo produtivo impactam o resultado final”, destaca Garcia.

A comparação com referências de mercado também pode apoiar essa gestão. Segundo o especialista, a Ourofino utiliza, entre suas referências, o benchmarking da Inttegra para comparar o desempenho das propriedades entre diferentes grupos e identificar oportunidades de melhoria.

Nesse contexto, protocolos semelhantes podem, de fato, resultar em desempenhos bastante diferentes. A IATF é uma ferramenta importante dentro da estratégia reprodutiva, mas seu potencial começa a ser definido antes da primeira aplicação — na condição das matrizes, na nutrição e sanidade do rebanho e no planejamento de toda a estação.

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