Avanço da tecnologia aumenta o receio de substituição de profissionais, mas também cria uma nova exigência no mercado: aprender a trabalhar ao lado da inteligência artificial
A inteligência artificial já escreve textos, analisa documentos, organiza dados, responde clientes, auxilia diagnósticos e automatiza tarefas que, até pouco tempo atrás, dependiam exclusivamente de pessoas. Diante dessa velocidade, uma pergunta passou a acompanhar profissionais de diferentes áreas: afinal, a IA vai roubar o meu emprego?
Para o médico ortopedista Dr. Júlio César Gazolla, pós-graduado em Inteligência Artificial aplicada à Saúde pela PUC-PR e mestrando na área de Saúde e Desenvolvimento Humano com foco em IA, a discussão precisa ir além da ideia de uma disputa entre humanos e máquinas. Mais do que perguntar quais profissões vão desaparecer, é necessário entender quais tarefas podem ser automatizadas e quais competências passarão a ser mais valorizadas.
“A inteligência artificial não deve ser vista simplesmente como uma tecnologia que chega para substituir pessoas. Ela muda processos, automatiza determinadas atividades e transforma a maneira como o trabalho é realizado. O profissional precisa entender onde essa ferramenta pode ampliar sua capacidade e onde a participação humana continua indispensável”, explica Gazolla.
Seu emprego pode não desaparecer, mas sua rotina deve mudar
Uma das grandes transformações provocadas pela IA está justamente dentro das profissões. Em vez de eliminar necessariamente uma ocupação inteira, a tecnologia pode assumir etapas repetitivas, operacionais ou que envolvem grande processamento de informações.
Isso significa que médicos, advogados, jornalistas, administradores, profissionais de marketing e tantas outras categorias podem continuar existindo, mas trabalhando de maneira diferente.
“Quando uma tecnologia consegue executar em minutos uma tarefa que antes consumia horas, não faz sentido simplesmente ignorá-la. O desafio passa a ser utilizar esse ganho de produtividade para liberar o profissional para atividades que exigem análise, estratégia, relacionamento, criatividade e tomada de decisão”, afirma o especialista.
Na medicina, área de atuação de Gazolla, essa mudança já pode ser percebida. A inteligência artificial pode auxiliar na organização de informações, em processos administrativos e em diferentes etapas da rotina de clínicas e consultórios. Ainda assim, tecnologia e responsabilidade profissional não são sinônimos.
“A IA pode apoiar o médico, mas não assume automaticamente aquilo que envolve julgamento clínico, responsabilidade, contexto e relação com o paciente. Saber utilizar a ferramenta também significa conhecer seus limites”, ressalta.
O risco de usar IA sem saber o que ela está fazendo
A facilidade de acesso às ferramentas também criou outro problema: acreditar que uma resposta produzida pela inteligência artificial necessariamente está correta. Sistemas podem cometer erros, interpretar informações inadequadamente ou apresentar respostas convincentes mesmo quando há imprecisões.
Por isso, quanto maior a presença da tecnologia no ambiente profissional, maior também tende a ser a importância do conhecimento técnico de quem está utilizando a ferramenta.
“Não basta saber fazer uma pergunta para uma IA. É preciso ter conhecimento para avaliar a resposta, identificar possíveis erros e decidir se aquela informação realmente pode ser utilizada. Quanto mais crítica for a área, maior precisa ser esse cuidado”, explica Gazolla.
É justamente por isso que competências tipicamente humanas não perdem relevância com a popularização da inteligência artificial. Capacidade crítica, ética, comunicação, criatividade, empatia e responsabilidade podem se tornar ainda mais importantes em ambientes nos quais parte da execução passa a ser automatizada.
Quem não aprender a usar IA pode ficar para trás?
Fundador da StartMed, empresa que desenvolve soluções de inteligência artificial para clínicas e consultórios, Gazolla também acompanha profissionais que tentam incorporar a tecnologia à rotina. Para ele, resistir completamente à mudança pode representar um risco maior do que a própria existência da IA.
A diferença estará menos em simplesmente “usar IA” e mais em saber incorporá-la de maneira estratégica.
“O profissional não precisa se transformar em programador ou especialista em tecnologia. Mas precisa compreender como essas ferramentas podem afetar sua profissão, quais processos podem ser melhorados e quais cuidados são necessários. A alfabetização em inteligência artificial tende a se tornar uma competência profissional cada vez mais importante”, avalia.
A própria trajetória de Gazolla ajuda a ilustrar como as profissões podem incorporar novas competências. Médico especialista em cirurgia do ombro e cotovelo e pós-graduado em Medicina do Esporte, ele passou a estudar inteligência artificial e hoje reúne medicina, tecnologia e empreendedorismo em sua atuação.
Então, a IA vai roubar seu emprego?
Talvez não exista uma única resposta. Algumas funções podem ser reduzidas ou profundamente modificadas, enquanto outras devem surgir conforme novas tecnologias passam a fazer parte das empresas. Para quem já está no mercado, porém, a mudança deixa uma mensagem clara: aprender continuamente passa a fazer parte da própria sobrevivência profissional.
A pergunta, portanto, pode estar mudando. Em vez de apenas “a inteligência artificial vai roubar meu emprego?”, profissionais talvez precisem começar a se perguntar: “como meu trabalho vai mudar com a IA e o que preciso aprender para continuar relevante?”
“A tecnologia muda, mas continuamos precisando de pessoas capazes de pensar, decidir, assumir responsabilidades e compreender outras pessoas. A inteligência artificial pode ampliar nossas capacidades. O diferencial estará em saber utilizá-la sem terceirizar para a máquina aquilo que continua sendo responsabilidade humana”, conclui Dr. Júlio César Gazolla