Golpes digitais usam solidão e engenharia emocional para capturar adultos vulneráveis

Golpes digitais usam solidão e engenharia emocional para capturar adultos vulneráveis

Fernanda Leite
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A nova engenharia da fraude atua no campo do afeto, da solidão e da fantasia — e por isso atinge adultos instruídos, experientes e emocionalmente exaustos.

Os golpes digitais deixaram de ser apenas uma questão de segurança cibernética. Cada vez mais, eles operam no campo emocional, explorando sentimentos de solidão, carência afetiva e necessidade de reconhecimento. Antes de atingir as contas bancárias, esses crimes atingem algo mais frágil: o vínculo humano.

Dados da SaferNet Brasil mostram que denúncias relacionadas a fraudes digitais envolvendo falsos relacionamentos, promessas afetivas e manipulação emocional cresceram de forma consistente nos últimos anos. Em muitos casos, as vítimas são adultos com alto nível de escolaridade, estabilidade profissional e autonomia financeira — um perfil que foge do estereótipo tradicional associado a golpes online. Em 2024, foram registradas cerca de 100 mil denúncias, contra 150 mil em 2023; essa redução não indica menor incidência, mas a migração dos crimes para ambientes digitais mais fechados e sofisticados, como o Telegram, que concentra mais de 90% das ocorrências.

Esse deslocamento amplia o uso de engenharia emocional, fazendo com que muitas vítimas só percebam a fraude quando o vínculo já está consolidado.
Para a psicóloga e psicanalista Camila Camaratta, o avanço desses crimes está ligado a uma mudança no modo como a fraude é estruturada.
“Esses golpes não começam mais pelo dinheiro. Eles começam pelo afeto. A pessoa é capturada pela sensação de ser vista, escutada, escolhida”, afirma.

Especialistas em segurança digital apontam que os golpistas passaram a utilizar algoritmos e análise de comportamento para identificar vulnerabilidades emocionais. Padrões de comportamento digital — ligados a momentos de transição, reorganização de identidade ou busca por pertencimento e validação — funcionam como sinais para abordagens altamente personalizadas, sem que a pessoa perceba.

“A tecnologia permite mapear quem já está emocionalmente fragilizado. O algoritmo encontra o alvo, e o golpista oferece exatamente a fantasia que falta”, explica Camaratta.

Perfis falsos são construídos com imagens cuidadas, histórias coerentes e linguagem ajustada ao estilo da vítima. A aproximação costuma ser gradual, baseada em empatia e identificação. Só depois que o vínculo se consolida surgem pedidos financeiros, normalmente associados a emergências, dificuldades pessoais ou oportunidades financeiras supostamente exclusivas.
Do ponto de vista da psicanálise, esse mecanismo se apoia em processos já descritos por Freud, como a idealização do outro e a projeção de desejos inconscientes. Em contextos de fragilidade emocional, essas projeções podem suspender o pensamento crítico.

Lacan também apontava que o desejo humano está profundamente ligado ao reconhecimento — à sensação de ser visto pelo outro. No ambiente digital, esse olhar pode ser simulado de forma contínua e personalizada.
“O golpe opera na imaginação. Não é a promessa de lucro que seduz, mas a promessa de vínculo. Quando a pessoa acredita que é especial para alguém, o juízo crítico fica em segundo plano”, afirma Camaratta.
Quando o golpe é descoberto, o impacto costuma ir além da perda financeira. Segundo relatos de organizações que atendem vítimas, sentimentos de vergonha, culpa e humilhação são frequentes. Muitos não registram ocorrência nem compartilham o episódio com familiares.

“A violência desse tipo de golpe é psíquica antes de ser financeira. A pessoa perde dinheiro, mas perde também uma fantasia que sustentava sua autoestima”, diz a psicanalista.

Para Camaratta, a prevenção não pode se limitar a alertas técnicos porque o ponto mais sensível desses golpes não está apenas fora, mas na relação do sujeito com suas próprias fragilidades. O autoconhecimento — entendido como um processo de análise pessoal — é o que permite reconhecer onde a fantasia começa a ocupar o lugar do vínculo real. Sem essa elaboração, o adulto tende a confundir atenção com cuidado, presença com reconhecimento e vínculo com salvação emocional. A análise não elimina o desamparo, mas cria um intervalo entre o desejo e a ilusão. É nesse espaço que o sujeito deixa de ser presa fácil não apenas de golpes, mas de narrativas que prometem preencher a falta.

No fim, os golpes digitais não se apoiam apenas em falhas de segurança ou desconhecimento tecnológico. Eles se alimentam da busca por reconhecimento — uma vulnerabilidade que permanece profundamente humana, mesmo na era dos algoritmos.

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