Feito Pipa: o que esperar do drama de Lázaro Ramos e Allan Deberton
Divulgação

Um título que remete à infância, um menino de 11 anos, uma avó que começa a esquecer e um pai que ele preferiria manter longe. ‘Feito Pipa’, dirigido por Allan Deberton, chega às salas brasileiras em 5 de novembro de 2026 com 1h33 de duração e a proposta de tratar o esquecimento pelo viés do afeto — sem fazer da doença um espetáculo.

Gugu, vivido por Yuri Gomes, é criado pela avó Dilma, interpretada por Teca Pereira, nos arredores de uma barragem. Quando percebe os primeiros sinais de Alzheimer na avó, o garoto decide esconder a condição para não precisar morar com o pai, personagem de Lázaro Ramos, com quem mantém uma relação tensa. É desse nó — o medo de perder a única referência que tem e o medo do que vem depois — que o longa extrai sua força. Quem gosta de decidir com informação costuma comparar o que está em cartaz com o que já pode ser revisto em casa: parte do público tem recorrido a IPTV Grátis para revisitar filmes brasileiros antes de escolher a sessão, e esse hábito ajuda a calibrar a expectativa de um lançamento nacional.

O que se sabe até aqui aponta para um drama de sala, pensado para a tela grande: fotografia ambientada em paisagem aberta, atuação mirim no centro da narrativa e um elenco adulto que sustenta a estrutura emocional sem roubar o foco do protagonista. É um filme sobre memória, mas também sobre dinheiro curto, casa apertada e laços de família que não se resolvem no diálogo.

‘Feito Pipa’: a trama de Gugu, uma avó que esquece e um pai que ele evita

A história se organiza em torno de uma rotina simples que começa a rachar. Gugu tem 11 anos, vive com a avó e conhece cada canto da região onde moram, marcada pela presença de uma barragem. A vida doméstica, previsível, é o chão do menino. Quando Dilma passa a repetir perguntas, a trocar objetos de lugar e a se perder em horários, esse chão começa a ceder.

O ponto de virada não é o diagnóstico em si, e sim a reação do garoto a ele. Em vez de contar o que percebe, Gugu passa a administrar a casa sozinho: esconde esquecimentos, inventa justificativas, assume tarefas que não eram dele. O motivo é direto — se a condição da avó ficar evidente, a alternativa provável é ir morar com o pai, de quem se afastou. A tensão entre os dois é construída antes mesmo de qualquer cena de confronto direto, no não dito, no silêncio das visitas e nas promessas não cumpridas.

Vale registrar o que o filme não é. Não se trata de um melodrama sobre doença terminal, nem de uma história de superação com final edificante. O roteiro equilibra drama familiar, luto antecipado, imaginação infantil e um cotidiano de recursos limitados. A doença aparece como fato da vida, não como antagonista. Quem procura uma trama de pai e filho em reconstrução também vai encontrar material — mas pelo caminho da criança, não do adulto.

Ficha técnica: 93 minutos, direção de Allan Deberton e estreia em 5 de novembro

Os números do projeto ajudam a situar o espectador. São 93 minutos de projeção, duração próxima da média dos dramas nacionais recentes, o que indica uma narrativa enxuta, sem subtramas paralelas numerosas. A direção é de Allan Deberton, cearense conhecido pelo longa ‘Pacarrete’, filme que também parte de uma figura idosa e de uma comunidade do interior para falar de memória e pertencimento.

Item

Informação

Direção

Allan Deberton

Duração

1h33 (93 minutos)

Estreia no Brasil

5 de novembro de 2026

Gênero

Drama familiar

Protagonista

Yuri Gomes, no papel de Gugu

Elenco adulto

Teca Pereira (Dilma) e Lázaro Ramos (pai de Gugu)

Ambientação

Arredores de uma barragem

Vitrine

Festival de Gramado

A comparação com ‘Pacarrete’ não é gratuita e ajuda a entender o que esperar. O longa anterior de Deberton também lidava com uma personagem idosa em uma cidade pequena e com a memória como tema central, mas por uma chave de comédia dramática. Aqui, o registro é mais contido e a infância ocupa o lugar de motor da história.

Yuri Gomes e Teca Pereira sustentam o eixo emocional da história

O desempenho do filme depende, em boa medida, da dupla central. Yuri Gomes assume o papel mais difícil: uma criança que precisa parecer adulta sem perder o repertório de criança. A construção de Gugu exige cenas de silêncio, de escuta e de pequenas mentiras cotidianas — um tipo de atuação que raramente recebe holofote em produções nacionais.

Teca Pereira, por sua vez, tem a tarefa de dar humanidade a uma personagem que, em mãos menos cuidadosas, viraria apenas um dispositivo narrativo. A personagem Dilma não é vítima passiva: tem humor, temperamento e vontade própria, o que torna o apagamento progressivo mais doloroso de acompanhar. A química entre os dois tem sido um dos pontos mais comentados nas primeiras exibições do longa.

Para o espectador que vai ao cinema buscando atuação, esse é o principal argumento a favor do ingresso. A relação entre avó e neto ocupa o centro da narrativa e sustenta as cenas de maior peso emocional, enquanto o restante do elenco adulto funciona como contraponto.

Lázaro Ramos é protagonista ou coadjuvante em ‘Feito Pipa’?

A dúvida é legítima, porque o nome de Lázaro Ramos é o mais conhecido do cartaz e costuma aparecer com destaque na divulgação. Na estrutura da história, porém, o protagonismo é de Gugu. O personagem do ator funciona como o eixo adulto do conflito: é a figura paterna ausente, o destino que o menino tenta evitar a qualquer custo.

Isso não reduz o peso do papel. A ausência paterna é o segundo luto da trajetória de Gugu — anterior ao Alzheimer, e talvez mais determinante. O filme trabalha a parentalidade negra e a paternidade interrompida sem didatismo: não há um discurso explicativo sobre abandono, e sim cenas em que o desconforto entre pai e filho se manifesta no corpo, no tom de voz e nas pausas.

Para quem acompanha a carreira do ator, o interesse está justamente na escolha de um papel secundário em termos de tempo de tela, mas central em termos dramáticos. É um tipo de participação diferente dos protagonistas que marcaram sua filmografia em títulos como ‘Madame Satã’ e ‘Cidade Baixa’, e também distinta do trabalho como diretor, caso de ‘Medida Provisória’.

O que a passagem pelo Festival de Gramado diz sobre o filme

A exibição no Festival de Gramado, principal vitrine do cinema brasileiro, cumpre uma função prática para o público: indica que o longa passou por crivo de programação e por plateia especializada antes de chegar ao circuito comercial. A recepção registrada na mostra foi elogiosa, com destaque para a dupla de atores principiantes e experiente.

Isso não garante bilheteria nem define qualidade, mas sinaliza duas coisas. Primeiro, que o filme tem ambição de circuito e não é produção de nicho restrito a festivais. Segundo, que a temporada de premiações tende a olhar para o longa em categorias de atuação e de filme. Para o espectador, é um indício razoável de que vale acompanhar a estreia, mesmo sem garantia de que o resultado agrade a todos os perfis.

Por que o filme trata de Alzheimer sem transformar a doença em vilã

A escolha mais arriscada do projeto é também a mais interessante: narrar o Alzheimer a partir de uma criança que decide esconder os sintomas. Ao deslocar o olhar do paciente para o cuidador mirim, o filme evita duas armadilhas comuns — a pieguice e a aula sobre a doença. O espectador descobre o que está acontecendo pelas pequenas falhas de Dilma, não por um diagnóstico anunciado em consultório.

Há um motivo narrativo para isso. Se a doença fosse tratada como antagonista, o conflito se resolveria na luta contra ela. Ao tratá-la como condição que reorganiza a rotina, o roteiro mantém o foco no que realmente interessa: as decisões que Gugu toma e o preço que paga por elas. A pergunta que move a trama não é como curar Dilma, mas o que fazer com o tempo que resta.

Esse recorte dialoga com a forma como a demência é vivida em boa parte das famílias brasileiras, em que o cuidado recai sobre mulheres da casa e, em situações de vulnerabilidade, sobre crianças e adolescentes. O filme não faz sociologia, mas o retrato doméstico tem esse fundo — e é o que deve gerar identificação para além do público habitual de drama nacional.

Luto antecipado: o que acontece com uma criança que vira cuidadora

Luto antecipado é o nome dado ao processo de perda que começa antes da morte, típico de doenças progressivas que apagam a memória e a autonomia. Em vez de um único momento de ruptura, a família atravessa perdas pequenas e contínuas: a pessoa que não reconhece mais o caminho de casa, a receita que não sai igual, o nome que escapa.

Quando quem cuida é uma criança, o quadro ganha outra camada. Gugu passa a operar em uma lógica adulta — controle de informação, administração do risco, sigilo — sem ter repertório emocional para isso. Alguns sinais desse deslocamento aparecem no filme de forma sutil:

  • o menino assume tarefas domésticas antes invisíveis para ele;

  • passa a mentir por proteção, não por travessura;

  • evita convidar pessoas para casa;

  • monitora a avó em vez de monitorar a própria rotina escolar;

  • abre mão da própria infância em nome de manter a casa como está.

Esse é o ponto em que o longa mais se afasta da sinopse e ganha densidade. A doença não serve apenas para comover: ela acelera um amadurecimento que ninguém pediu, e o filme observa esse processo sem julgamento moral.

A pipa e a barragem: os dois símbolos que organizam a narrativa

O título não é decorativo. A pipa remete à infância, ao brinquedo que depende do vento e da mão de quem solta — e ao ato de soltar o controle, que é exatamente o que Gugu se recusa a fazer. Ao longo da história, subir e descer a pipa funciona como medida do estado emocional do menino e da possibilidade de seguir em frente.

A barragem, por sua vez, é ameaça silenciosa. Estrutura construída para conter água e riscos, ela está sempre ali no horizonte e nunca é apenas paisagem. Como metáfora do esquecimento, funciona em dois tempos: representa o que se acumula e pode transbordar a qualquer momento, e também o que precisa ser represado todos os dias para não vazar.

Os dois símbolos se completam porque apontam para direções opostas. A pipa pede entrega, a barragem pede contenção. Boa parte do drama está no esforço do menino de equilibrar essas duas forças — e na percepção de que ambas exigem que ele deixe de ser criança antes do tempo.

O tom lúdico de Deberton ameniza ou aprofunda o drama?

A aposta em um tom lúdico para falar de esquecimento pode ser lida como tentativa de aliviar o peso da história. A observação mais precisa, porém, é outra: o lúdico não alivia, ele complica. Brincadeiras, histórias inventadas e a imaginação do menino funcionam como contraponto ao que ele não consegue nomear — e é justamente esse contraste que torna as cenas mais duras de assistir.

Esse recurso exige cuidado na direção, porque o riso e o desespero ficam muito próximos. O histórico de Deberton em ‘Pacarrete’ mostra familiaridade com esse limite. Quem espera um filme melancólico do começo ao fim deve encontrar um longa diferente do que prevê; quem teme um humor fora de lugar deve encontrar um registro mais discreto do que o título sugere.

Cinema ou streaming — e a partir de que idade o filme funciona

A estreia é de circuito de sala, o que faz diferença para um filme de fotografia aberta e som ambiente. O longa deve ocupar um número limitado de cópias e chegar ao streaming depois, seguindo a janela de exibição contratada entre distribuidora e plataformas — em geral, alguns meses após o lançamento comercial. Para quem quer ver na primeira semana, o caminho é conferir a programação local e considerar sessões em dias de menor movimento.

Critério

Sala de cinema

Espera pelo streaming

Custo médio

R$ 30 a R$ 50 a inteira em capitais, com meia-entrada prevista para estudantes e idosos

R$ 20 a R$ 60 por mês de assinatura, dependendo do plano

Tempo de espera

Imediato, a partir de 5 de novembro

Meses após a estreia, conforme a janela de exibição

Experiência

Tela grande, som calibrado, atenção sem interrupção

Pausas possíveis, tela doméstica, convivência com distrações

Público indicado

Quem quer acompanhar o debate do lançamento no mesmo momento

Quem prefere ver em casa e com legendas ativadas

Sobre a faixa etária, a classificação indicativa oficial costuma ser consolidada perto do lançamento, e vale conferir no site da distribuidora antes de comprar o ingresso. Pelo conjunto da trama — doença degenerativa, luto e conflito familiar com um pai ausente —, o filme funciona melhor a partir dos 10 ou 11 anos, quando a criança já consegue acompanhar a ideia de perda sem se assustar. Não há cenas de violência explícita nem apelo a sustos.

Duas recomendações práticas ajudam a aproveitar a sessão. A primeira é levar lenços de papel: o desconforto emocional é frequente, sobretudo nas cenas finais. A segunda é assistir acompanhado de alguém da família e reservar um tempo depois da sessão para conversar sobre o que foi visto. Filmes sobre esquecimento tendem a despertar lembranças de casos parecidos, e o diálogo posterior costuma valer mais do que a própria experiência no cinema.

Para os tutores de animais de estimação que costumam organizar a rotina semanal em torno dos cuidados com o bicho, a dica é prática: sessões noturnas em cinemas de shopping facilitam a logística de quem precisa deixar o animal com alguém em casa. Vale checar horários de sessão, estacionamento e política de transporte público antes de escolher o dia.

‘Feito Pipa’ chega com uma vantagem incomum para um drama nacional: nome reconhecível no cartaz, tema que atravessa gerações e passagem por festival com recepção favorável. A ressalva é o próprio peso da expectativa — um filme sobre esquecimento precisa ser visto com a paciência que o tema exige. Para o público que acompanha o cinema brasileiro de perto, a estreia de 5 de novembro merece agenda. Para quem prefere decidir depois, acompanhar as primeiras críticas e a permanência em cartaz é um caminho razoável, sem pressa e sem pressão.

Encontrou algum erro? Entre em contato