Estudo brasileiro mostra que uso de IA para diagnóstico de Alzheimer pode melhorar atendimento no SUS

Estudo brasileiro mostra que uso de IA para diagnóstico de Alzheimer pode melhorar atendimento no SUS

Fernanda Leite
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(Jhonata Emerick, CEO da Datarisk e responsável pela pesquisa. Crédito: Divulgação)

Pesquisa realizada no Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação da USP com dados públicos, utiliza técnica avançada de machine learning baseada em árvores de decisão; modelo alcança 89% de acurácia preditiva

A Doença de Alzheimer (DA), responsável por até 80% dos casos de demência em idosos, é um dos maiores desafios da saúde pública mundial. No Brasil, estima-se que mais de 1,2 milhão de pessoas convivam com a doença, muitas ainda sem diagnóstico. A detecção precoce é essencial para retardar a progressão e melhorar a qualidade de vida, mas os métodos atuais dependem de exames caros e entrevistas clínicas, dificultando o acesso universal. A solução para mudar esse cenário pode estar no uso de algoritmos de aprendizado de máquina aplicados aos dados públicos do Sistema Único de Saúde (SUS).

É o que mostra estudo realizado no Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação da Universidade de São Paulo. A proposta é simples: analisar padrões no histórico de saúde dos pacientes, disponível no DATASUS, para prever o risco de desenvolvimento do Alzheimer, segundo Jhonata Emerick, CEO da Datarisk e responsável pela pesquisa.

Foram processados milhares de diagnósticos do SUS, incluindo idade, gênero, procedimentos médicos e diagnósticos (CIDs). A partir desses dados, foram criadas variáveis que representam o histórico clínico dos pacientes em janelas temporais de cinco anos, permitindo ao modelo identificar correlações sutis entre doenças prévias, exames realizados e a probabilidade de desenvolver Alzheimer.

O estudo usou uma técnica avançada baseada em árvores de decisão. Após treinamento e validação, o modelo atingiu 89% de acurácia e uma AUC (Área sob a curva ROC) de 0,83, indicando alta capacidade preditiva. Entre os fatores mais relevantes para o risco de Alzheimer, destacaram-se idade, histórico de doenças mentais mal diagnosticadas, frequência de exames neurológicos e até condições oftalmológicas.

“Na era da informação, a ciência de dados e o aprendizado de máquina ampliam nossa capacidade de identificar padrões antes imperceptíveis. A técnica de inteligência artificial que utilizamos combina várias análises detalhadas para fazer previsões cada vez mais precisas e robustas. Este modelo é fundamental para lidar com a enorme e desigual base de dados do DATASUS, pois funciona bem com grandes volumes de informações, permite ajustes detalhados e garante resultados mais seguros e fáceis de entender”, explica Emerick.
Para ele, a integração dessas tecnologias ao SUS poderia transformar a abordagem da doença, oferecendo ferramentas para monitoramento de fatores de risco, estratificação de pacientes e planejamento de políticas públicas, assim como para as operadoras de saúde.

Projeções para 2050

Segundo a Organização Mundial da Saúde, o número de pessoas com demência no mundo deve triplicar até 2050, chegando a cerca de 150 milhões de casos. No Brasil, o envelhecimento populacional será um fator crítico: a proporção de idosos deve aumentar 173% até 2060, elevando os custos diretos e indiretos da demência para patamares alarmantes. Hoje, os gastos globais com cuidados chegam a US$ 1,3 trilhão, mas podem atingir US$ 2,8 trilhões em 2050. Sem estratégias de prevenção e diagnóstico precoce, o impacto sobre famílias e sistemas de saúde será devastador.

Impacto social das demências

● Sobrecarga familiar: mais de 80% dos cuidados são prestados por familiares, que enfrentam estresse físico, emocional e financeiro
● Perda de autonomia: pacientes evoluem para dependência total, exigindo cuidados contínuos
● Desigualdade no acesso: diagnóstico tardio é mais comum em regiões com menor infraestrutura, ampliando disparidades
● Impacto econômico indireto: redução da força de trabalho, aposentadorias precoces e aumento da demanda por serviços sociais
● Efeito em políticas públicas: necessidade de ampliar programas de atenção domiciliar, suporte psicológico e capacitação de cuidadores

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