Entre o bebê-bode e Jota do Lixo: as assombrações de Aranha Movediça, de Moacir Fio

Entre o bebê-bode e Jota do Lixo: as assombrações de Aranha Movediça, de Moacir Fio

Tássia di Carvalho
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Divulgação

Em seu novo romance, Aranha Movediça (Editora Moinhos), o escritor cearense Moacir Fio realiza um gesto ousado: costurar a violência colonial do sertão do século XVIII com a cena punk de Fortaleza nos anos 1980. O resultado é uma narrativa que desafia fronteiras, mistura linguagens e mergulha em zonas sombrias da memória brasileira.

O livro se estrutura como uma investigação. Um podcast true crime — dispositivo narrativo que dá ritmo e contemporaneidade à trama — conduz a busca pela história de Jota do Lixo, jovem punk morto em circunstâncias misteriosas e transformado em lenda urbana. Entre vozes de arquivo, depoimentos e fragmentos de memória, o romance reconstrói não apenas um personagem, mas toda uma cena contracultural marcada pela repressão policial, pelas drogas e pela precariedade da vida à margem.

Mas Aranha Movediça não se restringe à crônica do underground. Ao retornar ao vilarejo fantasmagórico de Cococi, no sertão do século XVIII, a narrativa evoca monstros, visagens e terrores coloniais que parecem atravessar o tempo e reaparecer sob outras formas — como a figura do bebê-bode ou a jovem catatônica sobrevivente ao incêndio do Muquifo. É nesse entrelaçamento entre o histórico e o mítico, o documental e o alucinatório, que o romance encontra sua força.

A prosa de Moacir Fio se destaca justamente por esse movimento duplo: emular o registro oral e jornalístico, como se estivéssemos de fones de ouvido acompanhando um podcast, e ao mesmo tempo alcançar picos de linguagem poética, densa e incômoda. O autor parece escrever a partir de um subterrâneo comum a tantas experiências brasileiras, onde violência e desejo convivem, e onde a realidade é indissociável da assombração.

Se a literatura latino-americana contemporânea já se afirmou como território fértil para o horror — basta lembrar Mariana Enríquez ou Mónica Ojeda —, Aranha Movediça traz esse diálogo para o Brasil de forma radicalmente enraizada. Aqui, o medo não é importado, mas brota do sertão, das ruínas coloniais, da repressão aos corpos marginais, da lama da nossa própria origem.

O resultado é um romance inquietante, que prende e incomoda, e que reafirma Moacir Fio como uma das vozes mais inventivas de sua geração. Ler Aranha Movediça é atravessar uma teia onde mito, contracultura e violência social se confundem — e da qual o leitor sai marcado.

Quem é Moacir Fio
Moacir Fio é escritor, músico e professor. Mestre em Letras pela Universidade Federal do Ceará, criou a Revista Escambanáutica e a PULPA Newsletter, iniciativas que pulsaram no circuito da literatura independente através do Coletivo Escambau. Sua escrita ecoa essa vivência: híbrida, indisciplinada e visceral.

Serviço

Lançamento de Aranha Movediça, de Moacir Fio
📍 XV Bienal Internacional do Livro de Pernambuco – Recife/PE
📅 10 de outubro de 2025
✍🏾 Sessão de autógrafos com o autor
🛒 À venda em: editoramoinhos.com.br/loja/aranha-movedica

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