E-commerce impulsiona bordados e enxovais de Ibitinga
Divulgação: Gabriel Valle - CEO Linda Casa

Entre empresas ouvidas pela CPL do Bordado, canal digital já representa de 25% a 100% do faturamento; negócios relatam crescimento de até 200% nas vendas online, geração de empregos e novos investimentos em tecnologia, comunicação e logística

Conhecida nacionalmente pela tradição na produção de bordados e enxovais, Ibitinga (SP) começa a escrever um novo capítulo de uma história construída ao longo de gerações. Se durante décadas a cidade consolidou sua força econômica atraindo compradores e revendedores de diferentes regiões do país, hoje parte dessa produção percorre o caminho inverso: sai do interior paulista diretamente para a casa dos consumidores por meio de sites, marketplaces e plataformas digitais.

O movimento observado entre empresas do polo acompanha uma transformação mais ampla do varejo brasileiro. Somente no primeiro semestre de 2026, o comércio eletrônico movimentou R$ 208,4 bilhões no Brasil, crescimento de 16,9% em relação ao mesmo período de 2025. Foram 756,7 milhões de pedidos, 34,8% a mais na comparação anual, segundo levantamento da Neotrust divulgado pelo E-Commerce Brasil.

O comportamento do consumidor ajuda a explicar essa expansão. Dados divulgados pelo IBGE mostram que, em 2025, 90,5% da população brasileira com 10 anos ou mais utilizou a internet. Pela primeira vez na série histórica, mais da metade dos usuários — 52,7% — afirmou ter comprado ou encomendado bens e serviços pela internet.

Em Ibitinga, os números de empresas ouvidas pela Cadeia Produtiva Local (CPL) do Bordado mostram como essa mudança vem alterando não apenas a forma de vender, mas também estruturas empresariais, empregos, investimentos e a própria capacidade de um negócio local alcançar consumidores em escala nacional.

Empresas que já nasceram digitais

Na Cecília Casa, especializada em jogos de lençois, 100% do faturamento já vem do comércio eletrônico. Segundo Daniely Fuentes, Head Comercial da empresa, as vendas digitais cresceram 60% nos últimos anos e atualmente chegam a consumidores de todos os estados brasileiros.

A operação está concentrada em marketplaces como Shopee e Mercado Livre, além do TikTok Shop. Hoje, nove profissionais trabalham diretamente na estrutura de e-commerce da empresa. “Nosso negócio é totalmente digital e hoje conseguimos vender para todo o país por meio das plataformas. Tivemos um crescimento substancial nas vendas e, para os últimos meses do ano, nossa expectativa é avançar mais 40%”, afirma Daniely.

A utilização de Inteligência Artificial também passou a fazer parte da rotina da empresa e, segundo a executiva, tem permitido manter reduzidos alguns dos custos relacionados à operação digital. O próximo passo poderá ser a expansão internacional, ainda limitada atualmente por questões logísticas e pelo modelo de vendas concentrado em marketplaces.

A Linda Casa apresenta outro retrato da força que o ambiente digital pode assumir dentro de uma empresa do polo. Fundada pelo CEO, Gabriel Valle, a companhia também tem 100% das vendas realizadas pelo e-commerce e registrou crescimento de aproximadamente 200% nos últimos anos. Diferentemente de uma operação baseada prioritariamente em marketplaces, a empresa concentra 95% das vendas em seu próprio site. Mercado Livre, Shopee, TikTok Shop, Amazon e Magalu respondem pelo restante.

A predominância do celular chama atenção: 98% dos acessos ao site da Linda Casa acontecem por dispositivos móveis. “Hoje, 95% das nossas vendas acontecem pelo site próprio e 98% dos acessos são feitos pelo celular. Tivemos um crescimento de aproximadamente 200% no digital e temos visto um retorno muito positivo dos investimentos realizados nessa estrutura”, afirma Valle.

Lençois, cobre-leitos, edredons e mantas estão entre os produtos mais vendidos. Assim como a Cecília Casa, a Linda Casa atende consumidores em todos os estados brasileiros. A expansão também se refletiu na estrutura da operação. Segundo Valle, cerca de 100 novos postos ou funções foram incorporados em decorrência do crescimento do negócio digital. Atualmente, o empresário estima investimentos da ordem de R$ 1,5 milhão por mês em áreas relacionadas à fotografia, vídeo, tráfego pago, atendimento digital e logística.

Negócios tradicionais também aceleram a transformação

O avanço do digital não está restrito às empresas que nasceram no e-commerce. Na Juma Enxovais, empresa com mais de quatro décadas de atuação no setor, o ambiente online vem ganhando participação progressiva dentro do negócio. Em 2024, o digital representava 13% das vendas. Em 2025, chegou a 24% e, atualmente, responde por aproximadamente 25% do faturamento total. A expectativa da companhia é encerrar 2026 com participação próxima de 28%.

A operação digital da Juma tem foco especialmente no mercado B2B e atende clientes em todo o território nacional. A empresa também já realiza vendas internacionais, e os cobre-leitos aparecem como principal produto comercializado pelo canal online.

“O digital vem ocupando um espaço cada vez maior dentro da empresa. Saímos de uma participação de 13% em 2024 para 24% em 2025 e continuamos avançando. Para nós, é um processo que envolve não apenas venda, mas treinamento de pessoas, tecnologia, eficiência logística e utilização de Inteligência Artificial”, afirma Osvaldo de Moraes, fundador e CEO da Juma Enxovais.

Entre 2025 e 2026, o avanço do e-commerce contribuiu, segundo a companhia, para um aumento de aproximadamente 7% nos postos de trabalho ligados ao setor produtivo. Para os últimos meses de 2026, a projeção é encerrar o ano com crescimento de 4% a 9% no segmento digital, na comparação com 2025.

Muito além do carrinho de compras

Os exemplos ajudam a revelar outro efeito do comércio eletrônico sobre economias locais: vender pela internet cria demandas que vão muito além da abertura de uma loja virtual.

Fotografia de produtos, produção audiovisual, gestão de tráfego pago, tecnologia, análise de dados, atendimento digital, administração de marketplaces, separação de pedidos, embalagem e logística passam a fazer parte da cadeia necessária para que uma venda realizada em poucos segundos pelo consumidor seja concluída.

O próprio Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), por meio do programa E-commerce.BR, identifica três áreas estratégicas para a expansão do comércio eletrônico: capacitação e desenvolvimento de recursos humanos; entregas e distribuição; e comunicação e integração digital, incluindo tecnologias como inteligência artificial, plataformas de mensagens e ferramentas de relacionamento com clientes.

Para Janaia Fabri, representante da Cadeia Produtiva Local do Bordado de Ibitinga e presidente da Associação Comercial e Industrial de Ibitinga (ACIA), essa transformação representa uma oportunidade de ampliar o alcance econômico de uma vocação que já está consolidada na identidade do município: “O e-commerce não substitui a tradição de Ibitinga; ele amplia o alcance dela. Quando uma empresa daqui consegue vender para consumidores de todo o Brasil sem sair da cidade, não estamos falando apenas de um novo canal de vendas. Estamos falando de uma nova cadeia de oportunidades, que envolve tecnologia, comunicação, atendimento, logística e qualificação profissional. Nosso desafio é fazer com que cada vez mais empresas estejam preparadas para aproveitar esse mercado sem perder aquilo que diferencia Ibitinga: a qualidade, a identidade e o valor dos produtos desenvolvidos aqui”.

Sobre a CPL do Bordado de Ibitinga

A Cadeia Produtiva Local do Bordado de Ibitinga atua na integração e no fortalecimento do ecossistema ligado ao setor de bordados e enxovais do município, conectando fabricantes, comerciantes, fornecedores, artesãos e instituições. Entre seus objetivos estão a valorização da identidade produtiva de Ibitinga, a qualificação empresarial, a inovação, o desenvolvimento de novos mercados e o fortalecimento da competitividade do polo.

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