Com quatro décadas de atuação médica e 30 anos dedicados ao estudo de um único biomaterial, o cirurgião Eduardo Teixeira construiu uma trajetória marcada por um embate direto com a desinformação. Professor titular de Cirurgia da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro e membro do Colégio Brasileiro de Cirurgiões e do Colégio Brasileiro de Cirurgia Plástica, ele se especializou na pesquisa do polimetilmetacrilato, o PMMA, substância cercada por polêmicas que, segundo ele, pouco dialogam com a ciência.
Estudos recentes coordenados por Teixeira demonstram que o PMMA não desencadeia reação inflamatória aguda. Para o cirurgião, os resultados apenas confirmam um histórico conhecido. “O PMMA é seguro desde 1967. Complicações existem, mas são raras e, em geral, acidentais”, afirma. Ainda assim, o caminho até esse consenso científico passou por um terreno marcado por confusão diagnóstica, uso clandestino de substâncias e narrativas alarmistas.
A origem da controvérsia remonta aos anos 1980, quando o médico alemão Gottfried Lemperle iniciou estudos sobre o uso injetável do PMMA como preenchedor. No Brasil, a técnica começou a ser explorada pelo médico Mateus Sommer Neto, ainda de forma incipiente. Foi nesse contexto que Eduardo Teixeira e seu pai, médico e químico, realizaram, em meados da década de 1990, os primeiros implantes com PMMA na clínica da família, em Santa Teresa, no Rio de Janeiro.
A questão que guiaria sua carreira acadêmica surgiu anos depois, durante o doutorado. O PMMA seria biocompatível também no tecido muscular, e não apenas no subcutâneo. A tese, defendida em 2006 na UFRJ, confirmou a hipótese. Os estudos mostraram que o material apresenta no músculo o mesmo comportamento observado na gordura. Formação de cápsula fibrosa rica em colágeno, reação crônica controlada e ausência de inflamação aguda ou necrose.
A comprovação ampliou as possibilidades terapêuticas. Além do uso estético, o PMMA passou a ser aplicado em reconstruções corporais, como reforço de parede abdominal, correção de deformidades musculares, sequelas traumáticas e síndromes congênitas. Para Teixeira, não existe uma fronteira rígida entre cirurgia estética e reparadora. “Estética e reparadora caminham juntas. Ninguém está saudável se estiver profundamente insatisfeito com a própria aparência”, afirma.
Segundo o cirurgião, o PMMA médico de qualidade, aprovado pela Anvisa e pela Food and Drug Administration, é um material inerte. Não provoca alergias, pois não é proteína. O organismo reage formando um granuloma de corpo estranho controlado, envolvendo as microesferas com colágeno e criando um volume estável e definitivo. Em cerca de 60 dias, o processo está consolidado.
Um dos principais pontos levantados por Teixeira é a confusão entre o PMMA regularizado e o silicone industrial utilizado clandestinamente. “Existe uma epidemia silenciosa de casos causados por silicone industrial vendido como PMMA em academias e salões, com consequências graves, inclusive óbitos”, alerta. Segundo ele, procedimentos ilegais passaram a ser rotulados como complicações do PMMA em atendimentos de emergência, reforçando uma narrativa equivocada.
Para o médico, injetar silicone industrial não é erro estético. É crime. “Quando isso é tratado apenas como complicação médica, a sociedade perde”, afirma. A resposta possível, diz, é insistir na produção científica, no rigor técnico e na comunicação clara com a população.
O impacto do uso correto do PMMA vai além da aparência. Teixeira destaca aplicações em casos de lipodistrofia associada ao HIV, síndromes congênitas, como a Síndrome de Poland, e sequelas de traumas. Um estudo conduzido por sua filha, ainda na graduação, apontou melhora não apenas estética, mas também social, emocional e até clínica em pacientes tratados.
Mesmo defendendo o material, o cirurgião reforça que o PMMA exige treinamento e responsabilidade. Por ser definitivo, o tratamento deve ser planejado em etapas, com acompanhamento rigoroso. Complicações podem ocorrer, mas são estatisticamente raras quando o produto é verdadeiro e a técnica adequada.
Após três décadas dedicadas ao tema, o legado que Eduardo Teixeira busca consolidar é o da clareza. Em um campo frequentemente dominado por medo ou interesses comerciais, ele aposta na sobriedade acadêmica como ferramenta de proteção ao paciente. “Acredito que ajudei a preservar um produto que pode devolver dignidade a muitas pessoas. É isso que me motiva”, conclui.
