Debate sobre PEC 18/2025 reforça papel do esporte na prevenção e no combate à violência
Flávio Perez | On Board Sports

A discussão sobre segurança pública no Brasil envolve mais do que o aumento de recursos destinados ao setor. Para o Instituto Sou do Esporte, o debate também precisa considerar políticas preventivas e o papel exercido pelo esporte na criação de oportunidades para crianças e jovens. Essa perspectiva foi apresentada por Fabiana Bentes, presidente e fundadora da entidade, em conversa com o procurador de Justiça Marcelo Rocha Monteiro, do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro.

O encontro ocorre durante a tramitação da PEC da Segurança Pública (PEC 18/2025), que já foi aprovada pela Câmara dos Deputados e agora está em análise no Senado. A proposta pode modificar a destinação de recursos provenientes das apostas de quota fixa. Para o setor esportivo, a mudança representa um impacto estimado em cerca de R$ 500 milhões por ano.

A possibilidade de alteração no financiamento mobilizou entidades e atletas, que passaram a atuar em Brasília na tentativa de mudar esse ponto da proposta.

Com experiência na área, Marcelo Rocha Monteiro defendeu que o esporte seja considerado dentro das estratégias de prevenção. Procurador de Justiça do MPRJ e professor do Departamento de Direito Processual da UERJ, Monteiro já foi vice-presidente e presidente interino do Conselho de Segurança Pública do Estado do Rio de Janeiro.

Em sua avaliação, medidas de combate ao crime precisam caminhar ao lado da presença do Estado na oferta de alternativas aos jovens.

“O combate a criminalidade envolve a redução da impunidade, o aumento de vagas no sistema prisional. Mas paralelo a isso, tem que existir a presença do Estado oferecendo alternativas para os jovens. O esporte é fundamental nesse aspecto. Ele exerce uma atração natural. O Brasil é muito voltado para o futebol, mas também para o esporte em geral. Não podemos desperdiçar essa oportunidade.”

Fabiana Bentes não contesta a necessidade de ampliar os investimentos em segurança. A preocupação, segundo ela, está na origem dos recursos destinados a esse objetivo.

“É evidente que o Brasil precisa investir mais em segurança pública. O que precisamos discutir é de onde esses recursos vão sair. Quando retiramos dinheiro do esporte, estamos retirando recursos de uma atividade que também atua na prevenção, na inclusão e na construção de oportunidades. Esporte e segurança pública não deveriam disputar orçamento. Eles fazem parte da mesma solução”, diz Fabiana.

Segundo a presidente do Sou do Esporte, pensar em segurança exige considerar o que acontece antes da ocorrência de um crime.

“Segurança pública não começa quando o crime acontece. Ela começa muito antes. Começa quando uma criança tem escola, oportunidade, esporte, referência e perspectiva. Se queremos discutir seriamente segurança no Brasil, precisamos discutir também prevenção”, reforça a presidente do Sou do Esporte.

Recursos e integração

A discussão levantada por Marcelo Rocha Monteiro também envolve a maneira como o dinheiro público é administrado e como diferentes setores do poder público podem trabalhar conjuntamente.

“Um caminho não exclui o outro, eles se complementam”, diz o procurador, ao defender a integração entre governantes, segurança pública e esporte.

Na avaliação do Sou do Esporte, essa visão ganha peso justamente no momento em que o Congresso define os mecanismos de financiamento da nova estrutura de segurança pública. O instituto considera importante evitar que a discussão seja transformada em uma disputa entre áreas que podem exercer funções complementares.

A mobilização contra possíveis perdas para o esporte não se limita à entidade. Comitês, clubes, atletas e dirigentes ampliaram a presença em Brasília nos últimos dias para defender a manutenção dos recursos do setor. Medalhistas olímpicos também chamaram atenção para a contribuição do esporte em áreas como educação, inclusão e prevenção da violência.

Fabiana resume a posição da entidade ao defender que os dois setores sejam contemplados.

“A discussão não pode ser segurança ou esporte. O Brasil precisa de segurança e precisa de esporte. O desafio é construir uma solução de financiamento que fortaleça uma área sem desmontar outra”, afirma Fabiana.

A PEC pretende aumentar a integração entre União, estados e municípios no combate ao crime e estabelecer fontes mais estáveis de financiamento para a segurança pública. Na avaliação do Sou do Esporte, entretanto, esse fortalecimento não deve acontecer com a diminuição dos investimentos em uma área que também produz efeitos sociais relevantes.

Impacto econômico do esporte

Outro ponto destacado por Fabiana Bentes é a dimensão econômica da atividade esportiva. Para ela, o setor não pode ser analisado somente sob a ótica do entretenimento ou da despesa pública.

Dados do primeiro estudo sobre o PIB do Esporte Brasileiro, produzido pelo Instituto Sou do Esporte, mostram que a atividade movimentou R$ 183,4 bilhões em 2023. O valor representou 1,69% do PIB nacional e correspondeu à geração de aproximadamente 3,3 milhões de empregos diretos e indiretos.

A pesquisa reforça a defesa do instituto de que o esporte seja tratado como um segmento estratégico para o desenvolvimento econômico e social brasileiro.

“Quando se corta investimento no esporte, não estamos falando apenas de medalha ou de competição. Estamos falando de projetos sociais, formação de atletas, empregos, desenvolvimento econômico e oportunidades. Precisamos começar a medir também o custo que o país terá quando deixa de investir nisso.”

Dez anos de atuação

Criado em 2015 pela jornalista Fabiana Bentes, o Instituto Sou do Esporte atua de maneira independente e apartidária com o objetivo de fortalecer o esporte brasileiro por meio da boa governança, transparência e responsabilidade social.

Ao completar uma década de atuação, o instituto consolidou-se como uma referência nacional em qualificação da gestão esportiva e em iniciativas que aproximam o esporte de temas como economia, inovação, comunicação e impacto social.

Entre as ações estão o Prêmio Sou do Esporte, reconhecido como a maior premiação multissetorial do esporte brasileiro; o PIB do Esporte, estudo pioneiro realizado em parceria com a EY para mensurar a participação do setor na economia nacional; o SDE Bisutti Talks, série de encontros voltada ao intercâmbio de conhecimento e networking entre lideranças do esporte e dos negócios; e o Sou do Esporte Gastronomia Nutritiva, que combina alimentação saudável, esporte, bem-estar e relacionamento.

Também fazem parte da atuação do instituto eventos, estudos, programas de capacitação e projetos estratégicos voltados ao desenvolvimento do ecossistema esportivo. A entidade conecta organizações, empresas, governos e lideranças com a proposta de contribuir para um esporte mais ético, transparente e sustentável.

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