Em ano de Copa do Mundo da FIFA são inevitáveis as comparações futebolísticas entre os participantes, mas também outras não tão evidentes. Após o fatídico 7×1 imposto pela Alemanha em 2014, os germânicos passaram a ser mais observados pelos brasileiros e uma rivalidade se intensificou a ponto de muitos torcedores de verde e amarelo terem se considerado vingados com a eliminação da Alemanha há poucos dias. Conhecidos como países apaixonados por futebol, há mais relações entre ambos que nem sempre são citadas.
Enquanto o português deriva do latim, o alemão não recebeu uma influência tão significativa desse idioma. Por isso, o som das palavras alemãs é bastante diferente, podendo causar estranheza a quem o estiver ouvindo. Assim, alguns afirmam que o alemão soa bruto, parecendo até que seus falantes estão brigando, além de ser de gramática difícil.
Isso ocorre por se tratar de uma língua distante, fora do quotidiano dos brasileiros, situação bem diferente, por exemplo, do inglês, cujo som é frequentemente ouvido em músicas, filmes, séries, no vocabulário vindo de novas tecnologias e até mesmo lido em livros, obras publicitárias e textos mais formais. Note-se que é comum ver peças de roupas mencionando palavras inglesas, mesmo que o seu portador não tenha noção da tradução, mas é raro encontrar a mesma ocorrência com outras línguas.
Os alemães estão mais próximos do Brasil do que se imagina. Segundo o DWIH (Centro Alemão de Ciência e Inovação) cerca de 5% da população atual do Brasil é de origem alemã, ou seja, mais de dez milhões de brasileiros têm relação direta com a Alemanha, vindos de uma imigração que teve início há mais de duzentos anos, fixando-se majoritariamente no sul do país, mas também em estados como São Paulo e Espírito Santo.
O alemão é um idioma muitas vezes aprendido no próprio lar paralelamente ao português, com os mais velhos ensinando os mais novos, mantendo cultura e tradição como recorte de um lugar e tempo. Por meio desse intercâmbio, muitas palavras germânicas se fixaram no português brasileiro, desde a palavra Blitz, que em alemão quer dizer “raio”, e o adjetivo “chique”, que em alemão se escreve schick, até a palavra hambúrguer, que em alemão significa não apenas a comida, mas também tudo o que é vindo da cidade de Hamburgo. Outro exemplo é a expressão “um doente”, em alemão ein Kranker, que tem uma teoria de sua origem bastante difundida, na qual pelo seu som neste idioma acabou tornando-se “encrenca” com um sentido bastante diferente no português.
São Paulo é a cidade com maior número de empresas alemãs fora da Alemanha, de acordo com a AHK (Câmara de Comércio e Industria Brasil-Alemanha), o que mostra relevância econômica e boas perspectivas de trabalho àqueles que se dedicam a estudar o alemão, além do inglês. Não só pessoas que trabalham nessas empresas, como também profissionais da área da saúde e estudantes de engenharia, psicologia, música, entre outros cursos, têm interesse neste idioma tão temido por muitos brasileiros. Vale lembrar que tanto o Direito Civil brasileiro como o alemão têm o mesmo alicerce, o que faz que estudar o pensamento de juristas germânicos é relevante para melhor compreender este ramo do conhecimento.
Mas no momento, a relação que mais se destaca está no campo do futebol, pois o grito de vitória que ficou preso na garganta, amargado pelo sabor da derrota, agora une brasileiros e alemães, meros expectadores aplaudindo a nova campeã mundial.
Mércia Alves Silva é professora licenciada pela USP em Letras Português e Alemão e com curso de formação de professores de alemão na Alemanha e na Áustria.
Marco Antonio dos Anjos é doutor em Direito Civil pela USP e professor na Universidade Presbiteriana Mackenzie, campus Campinas.