Vivemos a era da informação, mas em
contraponto, nunca foi tão difícil manter a atenção.
O aparelho de celular nos desperta,
acompanha nossas refeições, interrompe conversas, invade momentos de descanso
e, para muitas pessoas, permanece ligado até os últimos minutos antes do sono.
O que parecia uma ferramenta
criada para facilitar a vida tornou-se, silenciosamente, um dos maiores
desafios para a saúde mental contemporânea.
Nos últimos anos, diversos
profissionais passaram a discutir um fenômeno que ganhou popularidade nas redes
sociais: o brain rot, expressão em inglês que pode ser traduzida como
uma espécie de “deterioração mental” causada pelo consumo excessivo e
superficial de conteúdos digitais.
Embora o termo não represente um
diagnóstico médico oficial, ele tem descrito um comportamento cada vez mais
observado em minha prática clínica: dificuldade crescente de concentração;
redução da capacidade de leitura prolongada; perda do interesse por atividades
que exigem esforço cognitivo e a necessidade constante de novos estímulos.
O que surge no consultório?
Na minha experiência clínica como
psicanalista venho observando um aumento significativo no número de pacientes
que relatam exatamente essa sensação: dizem que não conseguem terminar um
livro, assistir a um filme sem olhar o celular, manter uma conversa longa ou
permanecer alguns minutos em silêncio sem sentir ansiedade.
Muitos acreditam estar
desenvolvendo algum transtorno grave, quando na verdade, em diversas situações,
estão vivendo as consequências de um cérebro permanentemente condicionado à
recompensa imediata.
Nosso cérebro humano foi
projetado para aprender por repetição e adaptação. Quando passamos horas
consumindo vídeos de poucos segundos, normalmente em torno de 7 segundos,
alternando rapidamente entre imagens, notícias, memes e notificações, estamos treinando
nosso sistema nervoso a buscar novidades constantes.
A dopamina, neurotransmissor
relacionado à motivação e ao sistema de recompensa, passa a ser liberada em
pequenas doses sucessivas, desta forma, cria—se um ciclo de expectativa
permanente. Com o passar do tempo, tarefas mais lentas e cognitivamente
exigentes passam a parecer desinteressantes. Ou seja, pensar um pouco mais
cansa e não nos interessa.
A busca pelo negativo.
Outro comportamento extremamente
preocupante é o chamado doomscrolling, que é o hábito compulsivo
de continuar deslizando a tela em busca de notícias negativas, tragédias,
crises econômicas, violência ou conflitos, mesmo quando esse conteúdo nos
provoca sofrimento emocional.
O problema é que nosso cérebro
possui uma tendência natural para detectar ameaças. Esse mecanismo foi
essencial para a sobrevivência da espécie humana, mas, no agora ambiente
digital, transforma-se em uma armadilha. Quanto mais consumimos
conteúdos alarmantes, maior tende a ser nossa sensação de insegurança,
ansiedade e impotência.
O que isso provoca?
O resultado é um ciclo perigoso
que se alimenta de si mesmo.
A pessoa sente ansiedade, então, procura
informações para tentar aliviar essa ansiedade, porém ela encontra ainda mais
notícias negativas e termina ainda mais ansiosa do que antes. Em seguida,
retorna às redes novamente, acreditando que precisa continuar acompanhando tudo
para não “perder” alguma informação importante.
Esse padrão também alimenta outro
fenômeno moderno: a fadiga mental digital.
Mas como identificar esse “CICLO”?
Manter ativa as notificações de
mensagens, vídeos curtos, publicidade personalizada e atualizações constantes
faz com que nosso cérebro permaneça em estado contínuo de alerta. Pouco a
pouco, torna-se difícil relaxar verdadeiramente.
Entre os principais fatores que favorecem esse processo
estão:
- uso
intenso das redes sociais por várias horas ao dia; - consumo
contínuo de vídeos curtos e conteúdos altamente estimulantes; - excesso
de notificações; - multitarefa
digital constante; - uso
do celular antes de dormir; - dependência
emocional da validação por curtidas e comentários; - medo
de ficar desconectado (FOMO); - busca
compulsiva por novidades.
Quais são os sinais e sintomas mais comuns que as pessoas
apresentam?
- dificuldade
de concentração; - esquecimentos
frequentes; - sensação
de “mente cansada”; - redução
da produtividade; - irritabilidade;
- ansiedade;
- necessidade
constante de verificar o celular; - dificuldade
para permanecer em silêncio; - sono
de pior qualidade; - perda
do interesse por atividades que exigem atenção prolongada; - sensação
de vazio quando estão desconectadas.
O que a Psicanálise nos diz?
Sob a perspectiva psicanalítica,
esse fenômeno vai muito além da tecnologia. As redes sociais nos ofertam algo
que toca profundamente em nossa constituição psíquica: reconhecimento
imediato, comparação constante e a promessa ilusória de preencher faltas
emocionais através da aprovação externa.
“Quanto maior a dependência
dessa validação, mais vulnerável o indivíduo se torna ao sofrimento psíquico”.
Não é apenas o algoritmo que
prende nossa atenção; muitas vezes, ele dialoga com nossos conflitos internos
relacionados à autoestima, insegurança, pertencimento e necessidade de
reconhecimento.
Isso explica por que duas pessoas
podem utilizar exatamente a mesma rede social e responderem de maneiras
completamente diferentes ao conteúdo. Para uma, trata-se apenas de uma
ferramenta de comunicação. Mas para outra, transforma-se em uma fonte
permanente de ansiedade.
Como podemos evitar ou
diminuir seus efeitos?
A boa notícia é que nossa mente
possui elevada capacidade de adaptação. Assim sendo, da mesma forma que aprende
hábitos prejudiciais, também pode reaprender padrões mais saudáveis.
Como fazemos isso?
Entre as estratégias mais eficazes de prevenção estão:
- estabelecer
horários específicos para utilizar redes sociais; - desativar
notificações não essenciais; - evitar
o uso do celular durante refeições; - reduzir
o consumo de vídeos extremamente curtos; - criar
períodos diários livres de telas; - praticar
leitura de livros ou textos longos; - investir
em atividades físicas; - manter
contato presencial com familiares e amigos; - priorizar
uma boa higiene do sono; - desenvolver
práticas de atenção plena e momentos de silêncio; - procurar acompanhamento profissional, quando identificar
as situações que causem desconforto.
Não se trata aqui demonizar o uso
da tecnologia.
As redes sociais aproximam
pessoas, democratizam o acesso ao conhecimento e oferecem inúmeras
oportunidades profissionais. O problema começa quando elas deixam de ser
ferramentas e passam a controlar nossos hábitos, emoções e tempo.
Um grande conselho é que: “Precisamos,
urgentemente, recuperar algo que está se tornando raro: a capacidade de
sustentar a atenção”.
Pensar exige tempo. Refletir
exige silêncio. Elaborar emoções exige pausa.
Uma sociedade que está se acostumando
a viver permanentemente distraída, corre o risco de perder justamente aquilo
que nos torna humanos: a capacidade de observar, questionar, criar e
construir significado.
Talvez o grande desafio para esta
geração não seja aprender a conviver com a tecnologia, mas reaprender a
desligá-la, quando necessário.