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Por Dr. Marcio Renzo – Psicanalista e hipnoterapeuta.

 

Muita gente confunde Transtorno de Personalidade Borderline com Transtorno Bipolar. A verdade é que são bem diferentes, e essa confusão pode prejudicar o tratamento. Uma pessoa diagnosticada erradamente pode receber a medicação errada, perder tempo valioso e sofrer muito mais. Os casos que vemos estampados nos jornais frequentemente refletem essas dinâmicas psicológicas não compreendidas. Vou explicar de forma simples porque essas diferenças fazem toda a diferença na prática.

O Borderline: Quando o Relacionamento é o centro da angústia

Quem tem Borderline sofre principalmente com relacionamentos intensos e instáveis. Imagine que você vê uma pessoa como perfeita, mas alguns minutos depois—ou algumas horas depois—essa mesma pessoa vira “a pessoa mais má do mundo.” Essa mudança radical não é manipulação, é sofrimento genuíno. A pessoa borderline sente o abandono como uma ameaça de morte emocional.

O padrão é de mudanças rápidas de humor relacionadas a eventos reais ou imaginados. Uma mensagem não respondida, um plano cancelado, uma frase interpretada como crítica, tudo isso desencadeia uma angústia profunda. Automutilação, comportamentos impulsivos e crises intensas surgem como tentativas desesperadas de lidar com essa dor que parece intolerável. O tempo de ciclo é curto: minutos a horas.

Um caso que ilustra essa dinâmica foi o de Any Awuada (também conhecida como Nayara Macedo das Virgens), a modelo envolvida com Neymar que foi presa grávida de três meses em maio de 2025, acusada de estelionato. Ela relata: “Vocês lembram quando eu fui presa? Não foi fácil, eu estava grávida de três meses. Sei tudo o que eu passei numa cela, grávida, com a minha mãe junto, eu sabia que a gente estava sendo injustiçada”[6]. O caso ganhou repercussão midiática intensa e envolveu relacionamento complexo e altamente emotivo, embora a justiça a tenha absolvido posteriormente, reconhecendo insuficiência de provas. Esse tipo de situação—onde a pessoa está envolvida em drama relacionado intenso e public shaming—frequentemente acompanha perfis borderline que vivenciam idealizações e quedas de forma radical.

Outro aspecto do borderline é a impulsividade destrutiva. Embora os crimes violentos não sejam exclusivos de um diagnóstico, casos como o de Suzane von Richthofen, que envolveu morte de pais em contexto de relacionamento intenso com namorado e irmão, ilustram dinâmicas de ligações obsessivas, idealização e posterior rejeição[12]. A perícia relatou detalhes que sugerem planejamento, mas o contexto emocional revela relacionamentos extremamente intensos e instáveis que caracterizam o borderline.

O Bipolar: Quando a Energia Sobe e Desce em Ondas

O Transtorno Bipolar funciona diferente. Aqui temos episódios bem definidos de mania ou depressão que duram semanas ou meses. Durante uma mania, a pessoa sente-se poderosa, cheio de energia, precisa de menos sono, gasta dinheiro em projetos impulsivos. Parece estar “de bem com a vida,” mas no fundo está descontrolada.

Depois vem a depressão profunda, que frequentemente deixa a pessoa imobilizada pela culpa e remorso pelos comportamentos da mania. O que é crucial: entre esses episódios, a pessoa volta ao normal. Ela consegue manter relacionamentos estáveis, sente-se como ela mesma e mantém uma identidade consistente. O ciclo é mais longo: semanas a meses entre episódios.

Embora menos aparente na mídia, comportamentos impulsivos massivos durante episódios maníacos podem incluir gastos descontrolados, comportamentos sexuais de risco, ou projetos grandiosos que resultam em consequências financeiras devastadoras. A diferença é que essas explosões são episódicas e são seguidas por períodos de normalidade relativa onde a pessoa reconhece: “não era eu, era mania.”

Violência de Gênero e Padrões Emocionais Descontrolados

Um aspecto crítico que a imprensa tem coberto com intensidade crescente é a violência contra mulheres, que frequentemente envolve padrões de relacionamentos tóxicos onde a instabilidade emocional é central. Em São Paulo, os feminicídios aumentaram 96,4% em 2025, em comparação com 2021[11]. Esses dados alarmantes refletem não apenas machismo estrutural, mas também a falta de compreensão sobre dinâmicas psicológicas que precedem crimes violentos.

Oito de cada dez feminicídios em Brasil foram cometidos por parceiro ou ex-parceiro[29]. Muitos desses casos envolvem ciúmes obsessivos, comportamentos controladores oscilantes, e ameaças que alternam entre “eu a amo” e “eu a mato”, padrões típicos de borderline não tratado. Cerca de 13% das vítimas de feminicídio no Brasil tinha uma medida judicial de proteção vigente contra o agressor no momento do crime[29], ilustrando como proteções legais falham quando a dinâmica psicológica subjacente não é compreendida.

Maria da Penha, defensora das vítimas de violência doméstica, ressalta que o julgamento social frequentemente protege o agressor: “Ele é tão bom porque não deixa faltar comida em casa,” ignorando sofrimento psicológico e abuso[25]. Essa dinâmica onde a pessoa alterna entre provisor e agressor, entre presença e abandono é clássica em relacionamentos onde um parceiro tem desregulação emocional severa.

Crimes Violentos e Descontrole Impulso: Quando a mente não consegue conter

Um dos casos mais perturbadores que ganhou repercussão foi o caso Henry Borel, menino de 4 anos morto em 2021 em contexto de abuso sistemático. A perícia encontrou 23 lesões por ação violenta, incluindo laceração hepática e hemorragia interna[16]. As investigações apontaram que Henry era “vítima de rotinas de tortura praticadas pelo padrasto” e que “a mãe tinha conhecimento das agressões”[16].

Este caso ilustra um aspecto sombrio: quando há descontrole emocional extremo associado a agressividade, frequentemente a mãe/parceira entra em estado de paralisia emocional, incapaz de agir. Esse padrão de inação frente à violência frequentemente acompanha mulheres em relacionamentos com homens que têm sérios problemas de regulação emocional—podendo ser borderline, transtorno do controle de impulsos ou abuso de substâncias.

Outro caso emblemático foi o caso Champinha, onde adolescentes cometeram crimes extremamente violentos. A cobertura midiática “reforçou discursos de indignação, medo e insegurança,” criando pânico público[10]. Enquanto o caso envolveu adolescentes, e portanto, questões de desenvolvimento cerebral, a brutalidade e frieza relatadas sugerem possível dissociação emocional ou falta severa de empatia, traços que podem estar associados a vários transtornos mentais ou ambientais.

Casos de abuso sistemático: Quando a impulsividade se torna predatória

O caso de Samuel Klein, fundador das Casas Bahia, revelado investigativamente em 2021, mostrou uma rede de abuso sexual em série contra centenas de meninas pobres ao longo de três décadas[19]. A grande imprensa se recusou a cobrir por 30 anos. “Um sistema inteiro simplesmente deixou o Samuel abusar dessas meninas, porque muita gente sabia que os abusos existiam. Motoristas sabiam, secretárias, caixas das lojas sabiam”[19].

Este é um caso diferente, não é impulsividade maníaca ou instabilidade borderline, mas predação sistemática. Contudo, ilustra como comportamentos impulsivos sexuais descontrolados, quando combinados com poder e impunidade, resultam em catástrofe. Educação e compreensão psicológica são críticas.

Assédio judicial e efeito da mídia no julgamento

Um caso que ilustra a complexidade atual é o da jornalista Mariana Ferrer, que foi humilhada publicamente por advogado durante julgamento de caso de violência sexual em 2020[17]. O ministro Alexandre de Moraes votou para que o caso tenha repercussão geral, propondo que “o Supremo discuta a nulidade de provas obtidas por meio do desrespeito aos direitos fundamentais da vítima em processos por crimes sexuais”[17].

A Lei Mariana Ferrer (Lei 14.245/2021) foi aprovada após esse episódio para “proteger vítimas de crimes sexuais de serem coagidas durante julgamentos”[17]. Este caso mostra como a mídia e o sistema judicial, frequentemente, revitimizam mulheres, algo que agrava traumas e pode intensificar sintomas em pessoas com Borderline.

Na prática: Como acolher quem sofre

Aqui está o que mudou minha compreensão como clínico. O acolhimento não é genérico. Cada pessoa precisa de algo diferente[1][2][20].

Para quem tem Borderline, o acolhimento significa validar a intensidade do sofrimento sem reforçar a cisão. Quando a pessoa diz que foi abandonada, você não discute se isso é “racionalmente verdadeiro.” Você reconhece: “Seu sofrimento é real. Você se sente abandonado, e isso dói.” Simultaneamente, você oferece uma presença constante e confiável—algo que ela nunca teve. A continuidade é o medicamento. Leitos de acolhimento noturno em CAPS III, por exemplo, oferecem exatamente isso: uma presença que não abandona[1].

A comunicação deve ser clara, calma e empática[2][20]. Escuta ativa significa colocar-se no lugar dessa pessoa, entender sua lógica interna. Não é “você está errada,” é “entendo que você está em sofrimento profundo.” O ambiente deve ser seguro e previsível. Mudanças de profissional, cancelamentos de sessões ou quebras de contrato são potencialmente traumáticos para borderlines.

Grupos de apoio entre mulheres vítimas de violência também são essenciais. Quando uma mulher com tendências borderline encontra outras com histórias similares, deixa de se sentir “louca” e passa a se sentir “acompanhada”[25]. Maria da Penha exemplifica isso: “Graças à publicidade dada pelo livro, o Comitê Latino-Americano e do Caribe para a Defesa dos Direitos das Mulheres (Cladem) se apropriaram da causa”[25], criando rede internacional de proteção.

Para quem tem Bipolar, o acolhimento significa algo distinto. Você reconhece que a medicação é essencial[1], não opcional. Mas o acolhimento não termina ali. Durante um episódio maníaco, a pessoa precisa de limite com compaixão: “Você está em um estado que não é seguro. Vamos trabalhar juntos para estabilizar isso.” Não é punição; é proteção.

O importante é que a pessoa se sinta acompanhada mesmo durante a crise, não abandonada[1][17]. Aqui, humanização significa explicar em linguagem simples o que está acontecendo com seu corpo e mente. Significa envolver a família no processo, oferecer suporte contínuo mesmo após a alta hospitalar[4]. Significa reconhecer que essa pessoa, entre episódios, é alguém com identidade e projetos de vida—não é apenas “um maníaco” ou “um depressivo.”

A Importância da precisão diagnóstica nos casos complexos

Quando olhamos para casos de crime e violência cobertos pela mídia, frequentemente vemos dinâmicas que sugerem desregulação emocional severa. O problema é que a imprensa frequentemente não distingue entre essas dinâmicas psicológicas. Uma pessoa em surto maníaco que comete crime é tratada da mesma forma que uma pessoa com instabilidade emocional crônica que comete crime, quando na verdade, as causas, prognóstico e tratamento são profundamente diferentes.

A morosidade do sistema judicial também prejudica pessoas com esses transtornos. O Brasil possui 17.737 processos criminais relacionados ao narcotráfico aguardando julgamento, ficando em média cinco anos e três meses em trâmite[21]. Para alguém com Bipolar em ciclo de depressão, uma espera de cinco anos para julgamento é traumática. Para alguém com Borderline, a incerteza crônica sobre seu futuro reforça exatamente o padrão que o transtorno perpetua: abandono, injustiça, falta de controle.

Um Chamado à precisão clínica e humanização

Como profissional, faço um chamado urgente: precisamos parar de diagnosticar por achismo. Precisamos ouvir realmente. Uma coleta de história cuidadosa, perguntando sobre o tempo das mudanças, o contexto (relacionado a eventos ou não), a qualidade dos relacionamentos, a continuidade da identidade, revela tudo.

Os casos que vemos na imprensa frequentemente refletem o lado mais trágico da falta de compreensão psicológica. Mulheres morrem porque seus parceiros não recebem tratamento. Crianças sofrem porque pais não conseguem controlar impulsos. Vítimas são revitimizadas no sistema judicial porque ninguém pergunta: “Essa pessoa está bem mentalmente? Será que precisa de acompanhamento enquanto aguarda julgamento?”

Queremos convidá-los a acompanhar nossas práticas e reflexões contínuas. Se você trabalha em saúde mental, se você sofre com um desses diagnósticos, se você ama alguém que passa por isso: a diferença entre borderline e bipolar não é acadêmica. É a diferença entre receber o acolhimento que realmente cura ou continuar sofrendo silenciosamente.

O acolhimento verdadeiro começa na compreensão profunda. Termine aqui a leitura, mas não termine a conversa. Compartilhe. Questione o diagnóstico se necessário. Procure profissionais que ouçam de verdade. Denuncie violência. Apoie quem sofre. A vida de alguém depende disso.


Referências e Fontes

[1] Coutinho, M. F. C. (2024). O percurso pela atenção à crise em saúde mental na cidade do Rio. Saúde em Sociedade, 33(1).

[2] Sysart. Saiba como a humanização pode ser aplicada no processo de atendimento nos hospitais.

[4] Hapvida NotreDame. Linha de Cuidado em Saúde Mental.

[6] Terra. ‘Grávida e presa injustamente’: modelo envolvida com Neymar é absolvida pela Justiça.

[10] Jurídico Certo. A Responsabilidade Penal Do Adolescente No Brasil: Estudo do Caso Champinha.

[11] Metrópoles. Ato contra feminicídio: mãe de Isabella Nardoni cobra apoio a famílias.

[12] YouTube. Expert analysis reveals secrets in the Suzane von Richthofen case.

[16] Jovem Pan. Caso Henry Borel: Monique é demitida pela prefeitura do RJ.

[17] Agência Brasil. Moraes vota para que caso Mariana Ferrer tenha repercussão geral.

[19] YouTube. O Jeffrey Epstein Brasileiro Que a Mídia Se Recusou a Cobrir.

[20] SimDoctor. Atendimento acolhedor na saúde: por que ele transforma a experiência do paciente.

[21] Gazeta do Povo. Judiciário leva cinco anos para analisar casos de narcotráfico.

[25] Agência Brasil. Maria da Penha pede rede direta de apoio para mulheres do interior.

[29] EFeminista. 13% de víctimas de feminicidio en Brasil tenía protección vigente.

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