Concentração de lucros, judicialização crescente e falhas de gestão colocam em risco a sustentabilidade do setor e acendem um alerta para o futuro das operadoras no Brasil
O setor de saúde suplementar no Brasil movimenta cifras bilionárias, mas enfrenta um cenário cada vez mais desafiador, marcado por desigualdade de resultados, pressão judicial e fragilidade na gestão. Embora os números gerais indiquem lucratividade, a sustentabilidade do sistema está longe de ser garantida.
Para a médica Linelly Peixoto Morellato, especialista em auditoria e gestão em saúde, e o advogado Tiago Lisboa Telles Ferreira, especialista em Direito Médico e da Saúde, o cenário exige uma mudança urgente de postura por parte das operadoras. “Estamos falando de um setor bilionário, mas com uma base extremamente desigual e fragilizada. O resultado positivo não reflete a realidade da maioria das operadoras”, afirmam.
Dados da Agência Nacional de Saúde Suplementar mostram que o país conta atualmente com 668 operadoras de planos de saúde médico-hospitalares ativas, responsáveis por cerca de 53 milhões de beneficiários. Ao considerar apenas operadoras com fins lucrativos e com mais de mil usuários, o universo se concentra em 447 empresas, que reúnem 88,56% dessas vidas.
Esse grupo encerrou 2025 com um resultado líquido de R$ 22,2 bilhões, somando ganhos operacionais, financeiros e patrimoniais. Apesar do montante expressivo, a distribuição dos lucros é altamente concentrada. “75% dos lucros nas dez maiores empresas mostram que o sistema não está equilibrado, e isso acende um alerta importante para o futuro”, dizem Linelly e Tiago.
Ao mesmo tempo, mais da metade das operadoras apresenta desempenho financeiro frágil ou negativo, o que evidencia um desequilíbrio estrutural no setor.
Um dos principais fatores que pressionam as contas é a judicialização da saúde. Em diversos casos, os custos com decisões judiciais superam o próprio lucro das operadoras — um cenário ainda subestimado pelo próprio mercado. Exemplos como os de operadoras do sistema Unimed ilustram como depósitos judiciais, provisões e liminares podem comprometer significativamente os resultados financeiros.
“Hoje, a judicialização deixou de ser exceção e passou a ser um fator estrutural de impacto financeiro. Em muitos casos, o custo das decisões judiciais supera o próprio lucro das operadoras”, explica Linelly Peixoto Morellato.
Estudos apontam que operadoras são condenadas em cerca de 90% dos processos que discutem cobertura assistencial. Ainda assim, apenas uma pequena parcela dessas ações conta com perícia médica, o que levanta questionamentos sobre a qualidade técnica das decisões.
“O modelo reativo, tanto na gestão quanto no jurídico, tornou-se obsoleto diante da complexidade atual da saúde suplementar. Não é mais possível tratar auditoria médica, jurídico e perícia como áreas isoladas”, afirma Tiago Lisboa Telles Ferreira.
O impacto desse cenário já pode ser observado no encolhimento do mercado. Entre 2010 e 2025, 377 operadoras foram encerradas ou incorporadas, evidenciando um processo de consolidação impulsionado por dificuldades financeiras e falta de governança.
Para os especialistas, o futuro da saúde suplementar passa, necessariamente, por uma mudança de mentalidade. “A sustentabilidade do setor depende de uma atuação integrada e estratégica, que combine rigor técnico, inteligência de gestão e tomada de decisão baseada em evidências”, destacam.
Na avaliação deles, o setor entrou definitivamente em uma nova fase, na qual improviso e falta de profissionalização não encontram mais espaço. “Profissionalizar a gestão deixou de ser um diferencial competitivo e passou a ser uma condição de sobrevivência. Quem ainda opera sem uma estrutura profissional em um setor dessa magnitude simplesmente não vai conseguir se sustentar nos próximos anos”, conclui Tiago.
Sobre os especialistas
Linelly Peixoto Morellato é médica com quase 15 anos de experiência. Possui pós-graduações em Auditoria de Serviços de Saúde e Modelos de Remuneração e Gestão de Saúde, além de MBA Executivo em Gestão de Saúde pelo Instituto Israelita de Ensino e Pesquisa Albert Einstein e mestrado profissional em Gestão para Competitividade em Saúde pela EAESP/FGV (em curso).
Atuou nos setores público, privado e terceiro setor, com ampla experiência em auditoria médica no SUS e na saúde suplementar, incluindo passagens por Unimed, PASA-VALE e AMS-Petrobrás.
Foi diretora técnica hospitalar e head de saúde de healthtech voltada à inteligência artificial aplicada à auditoria médica. Atualmente, atua na interface clínica, regulatória e jurídica, é conselheira de healthtech, professora da Board Academy e coordenadora da pós-graduação em perícia médica.
Tiago Lisboa Telles Ferreira é advogado com mais de 20 anos de experiência, com atuação em escritórios, administração pública e terceiro setor. Foi subsecretário executivo de Saúde em Campos dos Goytacazes e diretor jurídico da Fundação Benedito Pereira Nunes.
É especialista em Direito Médico pela Universidade de Coimbra e possui MBA Executivo em Gestão de Saúde pelo Instituto Israelita de Ensino e Pesquisa Albert Einstein.
Coordena a pós-graduação em perícia médica voltada para a área da saúde no Instituto Israelita Albert Einstein e leciona em cursos de Direito e Saúde e Gestão de Clínicas.