Recuo do setor atingiu o menor nível desde 2018, conforme aponta relatório da CNI
Após retração da atividade industrial brasileira em 2025, as fábricas do país trabalham para ajustar os estoques. Segundo a Sondagem Industrial divulgada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), o índice de evolução da produção do setor alcançou em dezembro o registro mais baixo já observado para o mês dos últimos sete anos.
O indicador encerrou o ano em 40,9 pontos, abaixo dos 42,5 registrados no mesmo mês de 2024. Embora a queda na passagem de novembro, quando marcava 44,4 pontos, para dezembro seja considerada comum, o resultado de 2025 chama atenção ao consolidar um ano de atividade mais fraca para a indústria.
O gerente de análise econômica da CNI, Marcelo Azevedo, afirma que os dados confirmam o diagnóstico de desaceleração do setor industrial, que tem sido acompanhado há um tempo. “Os estoques, por exemplo, continuam acima do planejado pelas empresas. Isso reforça uma certa frustração dos empresários e uma desaceleração da demanda mais forte do que prevista”, avalia.
Ainda de acordo com a pesquisa, o índice de evolução dos estoques industriais subiu de 47,9 pontos em dezembro de 2024 para 48,4 pontos em dezembro de 2025. Embora represente uma ligeira alta na comparação anual, houve uma queda mensal, já que em novembro do ano passado registrava 49,5 pontos. Quanto mais distante dos 50 pontos, maior é a variação ou a distância do planejado, conforme indica o relatório.
Para o engenheiro e sócio da Nomus, Thiago Leão, o ajuste nos estoques é uma resposta direta à desaceleração da produção e à maior cautela nas compras de insumos. “Para a gestão industrial, isso exige mais precisão no planejamento, porque estoques mal dimensionados podem gerar tanto falta de material quanto capital imobilizado em um momento de margens pressionadas.”
O engenheiro também aponta que a tecnologia é fundamental para otimizar esse processo, permitindo melhor visibilidade sobre consumo, demanda e produção.
Segundo o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), entre as ferramentas que podem auxiliar na gestão de estoque está o sistema ERP, sigla para Enterprise Resource Planning. Esse tipo de software integra diferentes áreas da empresa, como estoque, financeiro, vendas e cadastro de clientes, centralizando informações e reduzindo riscos de desencontro de dados.
“É um sistema de gestão que, além de ser indicado para empresas em situação de descontrole, ajuda a prevenir um eventual desequilíbrio nos processos internos”, informa o Sebrae.
Para negócios de menor porte ou que estão em estágio inicial de estruturação, o Sebrae também menciona o uso de planilhas inteligentes, que podem ser personalizadas com fórmulas e gráficos.
A busca por uma planilha de controle de estoque grátis, por exemplo, pode ser o primeiro passo para organizar entradas e saídas de produtos, acompanhar giro e identificar excessos ou faltas. “Com ferramentas de controle e sistemas de gestão integrados, a indústria consegue tomar decisões mais rápidas e equilibrar estoques de forma estratégica, mesmo em cenários de incerteza econômica”, complementa Leão.
Carga tributária lidera ranking de entraves
A elevada carga tributária permaneceu como o principal desafio enfrentado pela indústria ao longo de 2025. No quarto trimestre, 41,1% das empresas consultadas apontaram os tributos como um dos três maiores problemas do período, seguidos pelas altas taxas de juros (28%) e a demanda interna insuficiente (26,8%).
Na metodologia da pesquisa, cada empresário pode indicar até três obstáculos considerados mais relevantes para sua empresa, o que explica a soma dos percentuais acima de 100%.
Apesar disso, a avaliação sobre o cenário financeiro do setor apresentou melhora no quarto trimestre. O índice de satisfação com a situação financeira avançou de 48,9 para 50,1 pontos na comparação com o trimestre anterior, deixando a faixa de insatisfação. O relatório explica que isso significa que as empresas do setor deixaram de demonstrar insatisfação com sua situação.
O indicador de satisfação com o lucro operacional também registrou avanço, passando de 43,6 para 44,5 pontos. Já o índice de facilidade de acesso ao crédito subiu de 40,3 para 40,9 pontos, segundo aumento consecutivo e maior nível do ano. Ainda assim, o patamar segue distante da linha divisória, o que revela que o crédito continua sendo percebido como de difícil acesso, mesmo com leve melhora na comparação trimestral.
Em contrapartida, a disposição para investir mostrou perda de fôlego na virada do ano. O índice de intenção de investimento recuou 0,2 ponto entre dezembro e janeiro, passando de 55,9 para 55,7 pontos. Após três altas consecutivas, o indicador iniciou 2026 dois pontos abaixo do registrado em janeiro de 2025, quando havia alcançado 57,7 pontos.
Como a metodologia indica que quanto maior o índice, maior a propensão do setor a investir, o resultado sugere cautela adicional por parte das empresas diante do ambiente econômico.