Tecnologia passa a buscar, comparar e concluir compras, encurtando etapas e impactando as vendas online
Agentes de Inteligência Artificial (IA) estão alterando a dinâmica do e-commerce. Nos últimos meses, gigantes da tecnologia passaram a disponibilizar sistemas capazes de pesquisar e vender produtos, comparar opções e concluir transações mediante comando do usuário, assumindo etapas que antes dependiam exclusivamente da navegação manual.
De acordo com o Google, esses agentes são sistemas que conseguem alcançar objetivos e concluir tarefas em nome dos usuários, demonstrando raciocínio, planejamento e memória. Diferente de interações estáticas, esses aplicativos interpretam solicitações em linguagem natural, aprendem com o contexto e adaptam decisões conforme metas estabelecidas.
O lançamento do Business Agent pelo Google, em janeiro, é um exemplo. A empresa apresentou a novidade como uma nova forma de consumidores conversarem com marcas diretamente na busca.
Na prática, o Business Agent funciona como um vendedor virtual que responde a perguntas sobre produtos usando a linguagem da própria marca, permitindo que varejistas se conectem aos usuários no momento da decisão e impulsionem as vendas.
Em paralelo, testes como o Direct Offers, no AI Mode, permitem que ofertas sejam exibidas conforme a intenção de compra identificada pela própria IA. A OpenAI também ampliou o acesso ao seu agente para assinantes do ChatGPT, que já conseguem reservar restaurantes, organizar compromissos e realizar compras sem sair do ambiente conversacional.
A CEO da Experta, empresa especialista em link building e SEO, Flávia Crizanto, explica que o movimento encurta o processo de compra. “Se antes o consumidor pesquisava, por exemplo, ‘melhor tênis para corrida’ e navegava por diferentes páginas, agora um agente pode cruzar preço, estoque, avaliações e preferências pessoais, apresentando uma recomendação já filtrada”, exemplifica.
O reflexo da tecnologia também aparece no atendimento ao cliente. Segundo o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), o uso de agentes inteligentes cria uma automação capaz de interagir em canais como WhatsApp, Instagram e sites, entendendo dúvidas, realizando agendamentos e enviando informações.
A instituição afirma que entre os benefícios dessa automação está a possibilidade de qualificar leads, direcionar oportunidades para a equipe de vendas e enviar promoções no momento certo, aumentando as conversões e vendas.
Infraestrutura do comércio mediado por agentes
Por trás dessa transformação na experiência de compra estão padrões como o Model Context Protocol (MCP) e o Universal Commerce Protocol (UCP), como explica Crizanto. Em conjunto, esses protocolos criam a base técnica para que os agentes não só sugiram produtos, mas também consultem sistemas, tomem decisões e executem tarefas em nome do usuário.
Ela explica que os padrões sinalizam a necessidade de reorganizar a estrutura dos sites. “Durante anos, ao contratar serviço de SEO on-page, as empresas concentraram esforços em tornar páginas compreensíveis para mecanismos de busca. Agora, além disso, precisam estruturar funcionalidades para que agentes consigam acioná-las e executar tarefas.”
O MCP funciona como um padrão aberto que organiza a conexão entre aplicações de IA e sistemas externos, como bancos de dados, APIs e fluxos operacionais. ”Ele pode ser comparado a um ‘USB-C para IA’. Em vez de cada aplicação criar integrações próprias, o protocolo estabelece uma forma única de acesso a dados, ferramentas e ações”, compara.
Já o UCP é voltado à jornada de compra. Desenvolvido pelo Google, o padrão aberto estabelece uma linguagem comum entre agentes de IA, varejistas, plataformas e meios de pagamento, com compatibilidade com protocolos como MCP. Ele organiza como dados de produto, estoque e pagamento são compartilhados, permitindo que agentes iniciem e concluam compras dentro de experiências conversacionais.
Segundo Crizanto, o avanço dos agentes altera a lógica tradicional da visibilidade digital. Conteúdos, catálogos e informações de produto passam a alimentar diretamente sistemas que filtram e decidem antes mesmo do clique acontecer. “E, talvez, o mais importante: SEO, produto, dados e até mesmo investir em agência de digital PR começam a se misturar em uma mesma camada estratégica”, complementa.
Ela ressalta que, diferente do que muitos acreditam, a expansão dos agentes não diminui a importância do SEO. O ecossistema digital passa a ser híbrido, com busca tradicional, IA generativa e agentes coexistindo. Sendo assim, elementos como crawlabilidade, autoridade, clareza de entidades, e experiência do usuário permanecem relevantes.
Dessa forma, o que muda é a amplitude da otimização. Não se trata somente de pensar na encontrabilidade na página de resultados, mas de estar preparado para que sistemas autônomos reconheçam um site, compreendam seus dados e executem ações com base neles.
O Google também reforça que, à medida que os consumidores adotam experiências conversacionais e esperam transições perfeitas até a compra final, é preciso um novo padrão flexível. Segundo a empresa, é fundamental oferecer preços dinâmicos, suporte a verificações de estoque em tempo real e transações instantâneas, tudo dentro do contexto conversacional atual do usuário.
“A partir de agora é necessário observar três fatores: protocolos passam a importar tanto quanto interfaces; dados estruturados viram o insumo que alimenta diretamente esses agentes; e a conversão tende a se deslocar para dentro da própria experiência de IA”, conclui Crizanto.