Sabe aquele ditado que a gente
ouve por aí: “as palavras não machucam”? Pois é, a psicanálise
discorda e muito. A violência sistemática contra minorias deixa cicatrizes
profundas na psique das pessoas, mexendo em coisas fundamentais como identidade
e desenvolvimento. E não é só trauma pontual, não. É algo que vai marcando a
gente desde cedo, se infiltrando no inconsciente. Pesquisadores da Universidade
Federal do Espírito Santo vêm investigando justamente isso — como mulheres
vítimas de violência sexual e pessoas LGBTQIAPN+ sofrem impactos sérios na
saúde mental, desde depressão até comportamentos autodestrutivos.[1] É coisa
séria demais.
Quando a gente aprende a desumanizar
através das palavras.
Aqui tá o ponto: a violência
física é tipo o último ato de uma peça que começou bem antes. Muito antes. A
psicanálise nos mostra que antes de alguém apanhar, precisa primeiro deixar de
ser gente, sabe? Precisa virar “coisa”, objeto.
Uma colunista do Diário do
Nordeste escreveu algo que é meio assustador: “ninguém agride, viola ou
mata quem reconhece plenamente como igual.”[8] Isso quer dizer que a gente
precisa primeiro rebaixar a pessoa através da linguagem. Mulheres em aplicativos
de relacionamento sendo chamadas de “estupráveis”, camisetas de
certos grupos dizendo “não se arrependa”, adolescentes classificando
colegas por “utilidade” — tudo isso é ensaio. Treino do olhar que
depois autoriza a violência mesmo.
Frantz Fanon, um psiquiatra que
trabalhou com vítimas da colonização na Argélia, já tinha entendido isso nos
anos 1950.[12] Ele mostrou que o racismo e a opressão colonial não machucam só
o corpo, machucam o inconsciente das pessoas, deixam marcas que a gente passa para
o próximo. A psicanálise precisava acordar para isso: o sujeito não é uma “ilhinha”
isolada numa sala de consultório. A gente é marcado pelo contexto, pela
história, pela opressão que a gente vive.
O estresse de ser minoria: quando
ficar vivo já é cansativo.
Tem um termo que os pesquisadores
usam — “estresse de minoria.” Basicamente, é aquele cansaço crônico
de estar sempre em alerta, sempre na defensiva.[1] Pessoas LGBTQIAPN+ que não
se assumiram publicamente vivem nisso o tempo todo. É tipo estar sempre
segurando a respiração, sabe? E isso marca, mexe com tudo.
Os números falam por si: entre
pessoas trans no Brasil, a taxa de tentativa de suicídio chega a 43,1%.[4] Não
é de assustar? Quando a gente vê um número desses, não é um “caso” ou
outro. É evidência de que o sistema inteiro de violência está funcionando
mesmo, deixando cicatrizes profundas.
Mulheres vítimas de violência
sexual lidam com outra coisa bem pesada: a culpa que a sociedade coloca nelas.
Estupro não é só o ato violento, é a sociedade inteira pedindo para você ficar
de boca fechada, te perguntando se estava bebendo, como estava vestida.
Pesquisas da UFES estão investigando como essas mulheres conseguem se recuperar
disso, o que chamam de “crescimento pós-traumático”, mas é tipo tirar
água do poço com balde furado.[1]
Racismo na infância: quando a criança
aprende cedo que não vale nada.
Tem algo que machuca mais ainda:
quando a violência começa lá no comecinho da vida. Crianças negras em
comunidades periféricas crescem sob impacto direto da violência urbana — perdem
dias de aula porque tem confronto, deixam de tomar vacina, vivem em estado de
perigo o tempo todo.[7] Tudo isso não é experiência passageira. Fica marcado no
cérebro.
A pesquisa mostra que o racismo
funciona como uma experiência adversa que provoca “estresse tóxico”,
aquele estresse que mexe com o desenvolvimento normal do cérebro da criança,
afetando aprendizagem, memória, até a capacidade de lidar com emoções.[7] É
como se a gente estivesse pedindo para o cérebro da criança trabalhar em
sobrecarga constantemente.
E tem mais: quando crianças
negras enfrentam racismo cotidiano na escola, quando a história da sua gente
não aparece nos livros, quando professores ignoram comentários racistas de
colegas, a criança internaliza uma mensagem muito clara: “você não
pertence aqui, você não vale.”[10] Isso não desaparece. Fica no
inconsciente, afetando como essa pessoa se vê pelo resto da vida.
A escola que deveria proteger
e acaba machucando.
As escolas civis-militares
viraram exemplo disso. Tem reportagem do Ministério Público Federal mostrando
que estudantes LGBTQIAPN+ e negros são perseguidos por expressar sua
identidade, sofrem abordagens agressivas de policiais militares dentro de sala
de aula, têm sua liberdade cerceada.[19] Isso é violência institucional
disfarçada de “disciplina” e “ordem”. E as crianças
absorvem tudo isso.
O bullying também é assim. A
gente pensa que é só imaturidade de adolescente, mas é bem mais sério. Quando
meninos classificam meninas como “acessíveis” ou
“estupráveis”, quando adolescentes trans são impedidos de usar
banheiro de acordo com sua identidade, quando a história afro-brasileira é
quase invisível no currículo, tudo isso interfere radicalmente no
desenvolvimento psicológico.[10] E frequentemente os adultos não veem por que a
violência acontece nos espaços invisíveis das instituições.
O inconsciente racista: porque
a gente não consegue tirar racismo da cabeça com argumentos.
Aqui está uma coisa meio
complicada da psicanálise lacaniana: o racismo não funciona só no nível de
argumentação racional. [11] Ele funciona através de fantasias inconscientes
sobre o corpo do outro, sobre aquilo que “falta” ou “sobra”
naquele corpo. É profundo demais para a consciência atingir com argumentos
bonitos.
Isso quer dizer que combater
racismo não é só levar dados e fatos para a pessoa. É descolonizar a própria
psicanálise que a gente usa, trazer pensadores da diáspora africana e da
ancestralidade indígena.[9] Porque o racismo está enraizado em instituições, em
leis, em práticas que se apresentam como “naturais” e “inevitáveis”,
mas que são construções históricas mesmo.[14] E isso marca o desenvolvimento
das pessoas porque define desde cedo quem merece respeito, quem pode ocupar
espaços, cujo corpo é digno de proteção.
O grande desafio: transformar essa
realidade.
Se a gente entende que a
violência contra minorias não é só um problema individual ou familiar, mas
estrutural, então a solução também precisa ser estrutural. Significa investir
em formação antirracista para os professores, descolonizar currículos que
apagam histórias e culturas, criar políticas de segurança pública que respeitem
o desenvolvimento infantil em vez de criminalizá-lo. [7][10]
Significa também que cada um de
nós precisa se olhar no espelho. Porque a gente participa dessa violência,
através da linguagem que usa, das piadas que tolera, do silêncio quando alguém
fala algo degradante.[8] Como aquela colunista disse bem direto: antes de
agredir ou matar, é preciso deixar de reconhecer como igual. E a gente faz isso
todos os dias sem perceber.
Uma psicanálise que escuta o social.
O lado esperançoso disso tudo é
que pesquisadores brasileiros estão oferecendo caminhos reais. Estão
investigando crescimento pós-traumático em mulheres vítimas de violência
sexual, não só o sofrimento, mas também como essas pessoas conseguem
desenvolver resiliência.[1] Estudam saúde mental de pessoas LGBTQIAPN+ não
assumidas, buscando entender as estratégias que elas usam para sobreviver em
contextos de isolamento e discriminação.[1] Tudo isso aponta para uma
psicanálise mais humanizada, mais próxima da realidade brasileira mesmo.
O desafio agora é transformar
esse conhecimento em ação de verdade, em políticas públicas, em mudanças nas
instituições, em uma reconfiguração da sociedade que reconheça que todo mundo
merece respeito e dignidade. Porque violência contra minorias não é só gente
traumatizada que precisa de terapia. É uma sociedade inteira que precisa ser
radicalmente transformada. E isso começa em casa, na escola, no trabalho, começa
na gente mesmo.
Fontes citadas:
[1] Universidade Federal do
Espírito Santo (UFES). “Pesquisas investigam impactos da violência na
saúde mental de mulheres e de pessoas LGBTQIAP+.”
[4] BMC Public Health.
“Factors associated with transgender people mortality due to violence in
Brazil (2014-2022).”
[7] O Globo/UOL. “Primeira
infância e equidade: desafios do racismo, dos territórios e da segurança no
Brasil.”
[8] Diário do Nordeste. “A
linguagem como violência, exceto quando o alvo são as mulheres.”
[9] Blog Abarca Psicólogo.
“Psicanálise Contextualizada.”
[10] Jornal da Unicamp.
“Ensino da história afro-brasileira ainda enfrenta barreiras.”
[11] Juliane Mena.
“Psicanálise e o Pensamento Decolonial – Racismo e subjetividade.”
[12] Veja. “Filme sobre
Frantz Fanon ganha data de estreia no Brasil.”
[14] Scielo. “Raça e
racismo: aspectos conceituais, históricos e metodológicos.”
[19] Ministério Público Federal.
“MPF recorre de decisão que validou regras de escolas militares.”