Sergiopí revisita canções da MPB no álbum “Praeteritum”

Ana Silva
Ana Silva
12 min. para leitura
Sergiopí revisita canções da MPB no álbum “Praeteritum”

Um mergulho memorialista marca “Praeteritum”, novo álbum de Sergiopí.  O trabalho coloca em destaque o lado de intérprete do cantor e compositor carioca, apresentando versões para algumas faixas icônicas, mas pouco lembradas, da música nacional, além de “Finding Out the Hard Way”, da trilha sonora de “Staying Alive (Os Embalos de Sábado Continuam)”. O disco é um lançamento do selo LAB 344, já disponível nas principais plataformas.

 

Ouça “Praeteritum”:

https://sergiopi.lnk.to/Praeteritum

 

Ao longo de oito faixas, Sergiopí vai de Candeia e Milton Nascimento a Chico Buarque, Tim Maia, Marina Lima e Gonzaguinha. A produção é assinada por Wado, Bombom e Hiroshi Mizutani. O trabalho foi realizado entre julho e setembro de 2021, de Alagoas ao Rio de Janeiro, com a última parada em Miami, onde Carlos Freitas fez a masterização.

Após os autorais “Meu Pop É Black Power” (2015) e “Auradelic” (2020), o novo disco faz um resgate de raízes com olhar moderno e plural, onde canções da MPB ganham ares alternativos de avant garde.

 

“Praeteritum”, por Pedro Só:

Deixemos no passado o ditado em latim “praeteritum tempus umquam revertitur”, usualmente traduzido como “tempo perdido não se recupera”. Este “Praeteritum” é presente, nos conduz em tempo real por um emocionante passeio pela memória. Não só a memória de Sergiopí mas também o arsenal afetivo de ouvintes de outras gerações, latitudes, gostos e formações.

O terceiro álbum do cantor, compositor e produtor Sergiopí conecta décadas, climas e formas sensíveis do fazer pop. Mais do que nostalgia, é uma subversão do efeito do tempo, revisitando o conforto musical de outrora com referências contemporâneas ou de décadas mais próximas. “Praeteritum” promove uma espécie de sinestesia de eras, cruzando canções brasileiras e americanas dos anos 1970, 1980 e 1990 com uma sonoridade tão contemporânea quanto retrô. Dito assim, parece difícil de entender, mas não é.

O percurso do álbum inclui desconstruções e reconstruções mais ou menos ousadas, mas sempre reverentes à musa melodia. Apenas uma nota melódica ou outra foi alterada; mais que opção estética e respeito às tatuagens aurais impressas na infância e na adolescência, são cuidados de um tipo raro de cantor.

Sergiopí diz que prefere cantar suas composições, mas, depois de duas incursões autorais (“Meu Pop É Black Power”, de 2015, e “Auradelic”, de 2020), tomou o caminho de intérprete a partir de referências familiares. Familiares e peculiares, bem pessoais: verões em Itacuruçá (costa verde do Rio de Janeiro), brincadeiras na linha de trem de Mangaratiba, o castelinho onde Os Trapalhões filmaram “O Trapalhão na Ilha do Tesouro” (1976), perto de Muriqui; os vinis de Rita Lee, precocemente colecionados; os filmes de John Travolta, o samba que o pai, boêmio criado na Saúde (Centro do Rio), tocava em casa, e as histórias do avô negro que, preso por ser comunista, dividiu cela com Graciliano Ramos na Ilha Grande.

Ao mesmo tempo disco de intérprete e trabalho autoral, “Praeteritum” traz escolhas de repertório que escapam do conhecimento da imensa maioria do público. Na faixa 1 está a única canção realmente famosa do disco, “Preciso Me Encontrar”, clássico de Candeia eternizado na gravação de Cartola, de 1976, e muito conhecido também na versão registrada por Marisa Monte em seu disco de estreia.

Quem produz a faixa é o alagoano de criação (nascido em Santa Catarina) Wado, mais de vinte anos de graduação nas misturas de indie rock, MPB e brasilidades. O caminho é original, começa por synths etéreos pairando sob a voz limpa de Sergiopí, sem efeitos e dobras. O arranjo ganha corpo e tons épicos com a adição da percussão de Jair Donato e do próprio Wado, culminando com uma entrada triunfal do agogô, costurando origens e abrindo caminhos.

Não é por acaso que a data escolhida para o lançamento do álbum é dia de santo, Oxóssi, 20 de janeiro.

Wado produz outras três faixas. A segunda delas é a segunda do disco, um bem-vindo banho de otimismo para 2022: “Alô, Liberdade”, um Chico Buarque raro, muito bem sacado da trilha do musical “Saltimbancos Trapalhões”, que tinha como estrela uma Bebel Gilberto adolescente. Escrita pelo maestro argentino Luis Enríquez Bacalov com letra do italiano Sergio Bardotti em parceria com Chico, a canção tem feat. do pianista alagoano Dinho Zampier. O arranjo foge dos clichês dos temas infantis ou circenses, sem perder a alegria inerente e deixando o terreno livre para Sergiopí valorizar a “sutil melodia” citada em um dos versos. No final uma citação de “A Banda”.

Hiroshi Mizutani, tecladista de Lulu Santos, produz a terceira faixa, “Coisas da Vida” (Milton Nascimento e Fernando Brant). O arranjo veste de referências contemporâneas (da música eletrônica do inglês James Blake) e violinos (a cargo de Glauco Fernandes) o hit pouco lembrado de Milton (do LP “Txai”, de 1990). Sergiopí corre para o lado oposto da matriz, servindo à canção com suavidade em todas as suas modulações.

Do repertório menos conhecido de Tim Maia vem um hit instantâneo, “Over Again”. O samba soul que era um dos tesourinhos do LP de Tim de 1973 é revirado do avesso, ganhando novos charmes inesperados, sem perder o apelo dançante que fez da faixa item cult entre vinileiros adoradores de boogie. Quem faz a mágica acontecer aqui é um dos fiéis escudeiros de Sergiopí desde seu primeiro álbum (“Meu Pop É Black Power”), Bombom, baixista que surgiu tocando com Ed Motta ainda no Conexão Japeri. Você pode reconhecer traços de “Royals”, hit de Lorde, mas há uma carioquice sutil permeando as escolhas de arranjo e de intérprete.

A quinta parada da viagem também é um belo achado “arqueológico”, apesar de ser a canção mais recente do repertório. “Nada Sem Você” saiu em 2000, em um álbum de Ivan Lins, “A Cor do Pôr do Sol”, que ficou fora das redes, “enterrado” no espólio da gravadora Abril Music. Sergiopí surfa a fossa da bela letra de Celso Viáfora (parceiro de Ivan na canção, junto com o italiano Ivano Fossati), brilhando no contraste com o colorido trazido pelo piano de Dinho Zampier e pela produção synthpop desenvolvida por Wado. Na parte rítmica, uma inusitada pitada de xote desconstruído, influência das experimentações de Mauro Refosco (Forró in the Dark, Thom Yorke, Atoms For Peace).

Em “Uma Antiga Manhã”, o cenário musical tem como referência o som ambient de “Goodbye”, tema de abertura da série “Dark”, do produtor alemão Sascha Ring, que lança discos sob o nome Apparat. Mas a praia é um dos patrimônios do cool pop carioca: Marina Lima.

Sergiopí valoriza a dor de cotovelo quase metafísica dessa bela canção semiesquecida no álbum “Pierrot do Brasil”, de 1998 (o segundo da carreira de Marina após a crise emocional que afetou sua emissão vocal). “Esse foi meu disco de cabeceira durante uma certa fase da minha vida”, conta ele.

Numa gaveta próxima da memória estava outra pérola do mesmo disco, “Deixa Estar”, e veio a ideia de adensar tudo ainda mais chamando a amiga Patricia Marx para declamar os versos de Antonio Cicero. Isolada em casa, ela encontrou dentro de um armário a acústica ideal para gravar a lâmina de “Porque nós dois nos cruzamos/ Com pressa demais/ E foi tudo intenso e veloz/ Só que em pistas opostas/ E tão sós”.

A faixa sete, “Finding Out The Hard Way”, é uma canção que Sergiopí sabia de cor, lembrança dos idos de 1983/84, quando “Os Embalos de Sábado Continuam” (“Staying Alive”) passou no Brasil. Quem cantava era Cynthia Rhodes, par de John Travolta no filme (e futura estrela de “Dirty Dancing”).

A abordagem de Bombom e Sergiopí levou a power ballad para um lado R&B mais delicado, com comentários blues à guitarra sob uma cama de Fender Rhodes e Moog. A melodia de Frank Stallone (o irmão de Sylvester, que nessa trilha também emplacou o hit “Far From Over”) continha armadilhas, modulações “tricky” que levaram a própria Cynthia a alguns deslizes na gravação original. Mas foi aí que Sergiopí se arriscou mais, mudando tempos, inserindo um scat e imprimindo a elegância que o tema exigia.

A saideira é com um clássico da MPB, “Recado”, de Gonzaguinha, faixa-título do LP de 1978. A poesia libertária e visceral do autor é exposta em toda a sua contundência, mas alguns tons abaixo, ganhando sutileza na interpretação vocal e na guitarra de Bombom. O verso “minha vida é tutano, é osso” traduz um pouco a trajetória de Sergiopí até aqui. “A arte vem do sofrimento. Mesmo quando estou feliz, estou triste. É alegria e caos”, compara.

“Praeteritum” termina assim, reafirmando sua artesania pop com os efeitos mágicos, curativos e terapêuticos que a boa música tem desde que o mundo é mundo. Como diziam Candeia e outros mestres antigos, lenitivo.

Sergiopí revisita canções da MPB no álbum “Praeteritum”

Crédito: A. Lopes

 

Ficha técnica:

Idealizado por Sergiopí

Produzido por Wado (1,2,5,6), Bombom (4,7,8), Hiroshi Mizutani (3)

Gravado remotamente entre julho e setembro de 2021 // Alagoas – Rio de Janeiro

Vozes gravadas no EME Studio (RJ) por Tuta Macedo

Masterizado em Miami por Carlos Freitas

Arte Capa: Luan Lopez (Foto: Acervo Sergiopí)

 

MÚSICOS

Sergiopí – Voz, Vocais, Piano (faixa 4)

Jair Donato – Sintetizadores, Beats, Percussões

Bombom – Baixo, Baixo Slap, Guitarras, Beats

Hiroshi Mizutani – Piano, Sintetizadores, Efeitos

Glauco Fernandes – Violinos

Dinho Zampier – Pianos

Wado – Percussões Adicionais

Patricia Marx – Spoken Word (faixa 6)

 

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