O sistema de franchising está sofrendo com o etarismo?

Ana Silva
Ana Silva
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O sistema de franchising está sofrendo com o etarismo?

Segundo dados do Sebrae, a idade média do empreendedor brasileiro é de 44,7 anos. Ainda segundo a entidade, o empreendedor brasileiro da 3ª idade é o que mais gera empregos no país.

Muitas vezes sofrendo preconceito no mercado de trabalho, profissionais com experiência decidem empreender – e, não raro, optam por franquias. Eles trazem para seus novos negócios a expertise que obtiveram no mercado de trabalho, desempenhando com desenvoltura o papel de gestores das unidades franqueadas. Não raro, tornam-se multifranqueados – aqueles com várias franquias de uma ou mais bandeiras.

Também marcam presença no franchising os franqueados que já estão há muitos anos com suas parcerias estabelecidas com as marcas e amadureceram com elas.

Algumas redes – a exemplo do Yázigi, O Boticário, Bob´s, CCAA, Fisk, Localiza e Kumon – datam do final dos anos 80 e têm franqueados daquela época ainda na ativa, embora a maioria das unidades antigas já esteja na segunda ou terceira geração de franqueados. Marcas mais novas mas, ainda assim veteranas, têm franqueados com mais de 20 anos de operação – como Casa do Construtor, The Kids Club, Divino Fogão, China in Box, Spoleto e tantas outras – o que mostra que franqueadores e franqueados constroem a marca juntos.

Até hoje, não se percebe uma predileção das marcas por franqueados de determinada faixa etária. Nos processos de seleção, mais valem outras características – como ter o capital necessário para o investimento, claro; perfil adequado para aquela operação; facilidade com vendas e comunicação; conhecimento da região na qual a franquia será implantada, dentre outros aspectos. Então, nesse sentido, não se percebe o chamado etarismo nos processos seletivos.

Porém, podem-se considerar delicadas algumas relações que se apresentam dentro do dia a dia das franqueadoras – e para as quais é preciso ter uma atenção especial, antes que o relacionamento entre franqueadores e franqueados se deteriore.

As equipes da franqueadora são responsáveis por tornar a marca dinâmica e competitiva, garantindo sua manutenção e perenidade no mercado. Cada vez mais, as redes contratam jovens para suas equipes, com finalidades diversas: oxigenar ideias, ampliar a inovação, baratear custos com mão de obra, enfim, motivos não faltam para ter times compostos por profissionais cheios de energia e juventude – que lidarão com a experiência dos franqueados que estão na rede há 20 anos.

Não quero entrar, aqui, num discurso ou discussão de conflito de gerações, mas é importante que haja uma harmonização nesse relacionamento. E é o franqueador e seus diretores quem devem liderar essa harmonia, para que o franqueado aceite os profissionais jovens e suas ideias, no sentido de atualizar a marca, e os novos colaboradores da franqueadora valorizem toda a vivência de quem fez essa rede prosperar.

É importante lembrar que profissionais 50+ não necessariamente têm ideias tradicionais e ultrapassadas. É possível manter-se atualizado, até mesmo diante dos recursos tecnológicos, porque a expectativa de vida produtiva aumentou consideravelmente nos últimos anos.

Uma ação interessante é mesclar profissionais sêniores e juniores nas franqueadoras. Colocá-los trabalhando lado a lado trará equilíbrio na unidade gestora. E promover a integração entre eles, por meio de campanhas de endomarketing e capacitações constantes, é fundamental para que as equipes não pratiquem o etarismo e todos se vejam como profissionais, algo que vai além de qualquer data de nascimento.

Do outro lado, franqueados com muita experiência também precisam valorizar ideias novas, buscar atualização e entender que o mercado muda constantemente, sendo necessário evoluir com os anseios do consumidor. O que se praticava há dois anos é completamente diferente do que é preciso fazer hoje – quem dirá se o comparativo ocorrer com o que era feito há 20 anos! Então, antes de imaginar que os jovens não têm o que oferecer, além da falta de experiência, vale a pena ouvi-los com atenção.

As relações humanas são complexas e o franchising é justamente um emaranhado de relacionamentos. Cabe aos seus interlocutores aprender a ouvir e entender o outro – até mesmo nas entrelinhas. Independentemente da idade, todos podem garantir seu lugar de fala.

 

*Melitha Novoa Prado é advogada especializada em Franchising e Varejo.



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