Democracia sem povo

Marcelo Cordeiro
Marcelo Cordeiro
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Democracia sem povo

Não será necessário sair  ás  ruas, ao  estilo  de  Diógenes, com uma vela nas  mãos, em  plena  luz  do  dia, a  procura de  um torcedor tricolor reclamando, aos  quatro ventos, a defenestração da  atual  diretoria do  Bahia.  Eles  estão  em  toda  parte, perplexos  e  indignados.

Ainda  bem  que  o  BAHIA é  uma  Democracia…Temos Diretoria, Conselhos e  votos. É uma Democracia  sui  generis. Não precisa de povo. Um novo estilo de  Democracia,  na  qual  o  povo,  ou seja  os  milhões  de  torcedores, espalhados pelo mundo afora, dela não  participam. São soberanamente representados pelos sócios, um conjunto móvel de sábios, que  tudo decide em  nome do  povo  torcedor.

O povo torcedor se exprime aos milhões. Os sócios a uns  poucos  milhares. Os primeiros foram cozidos no caldeirão  fervente das paixões. Os  outros adquiriram a  cidadania  tricolor através do vil metal  de  suas  mensalidades.

O país  inteiro  desconhece  esse  fenômeno político e o nosso  BAHIA termina  sendo  o  único  clube  brasileiro a  ostentar o  sublime  título de  uma  Democracia. Mais nenhum, a  não  ser o  intrépido Corinthians  paulista  á época  de  Sócrates  e  seus  valentes  guerreiros, os  quais ousaram desafiar o  regime  político ditatorial, que vergava  a  Nação a seus miseráveis  ditames. Era uma  Democracia da palavra. A Democracia corinthiana era, de fato, a  liberdade  de expressão em  tempos sombrios.

O  nosso BAHIA, de  tantos títulos  e  glórias, é  uma  Democracia sem  povo. Que  triste  papel! Saímos da noite das  trevas, para o  feudalismo  moral de uma  democracia  do  silêncio,  tão  respeitosa  em  suas  regras intrínsecas que  passamos a  cultuar o  temor  reverencial  aos dirigentes e  o  repúdio aos  campeões do  passado.

Aí  daqueles que, por cúmulo  da  distração, festejarem  na  mesma  narrativa os  campeões de  59 e  88 juntamente  com  os  generais  da  época:  Osório e Maracajá.  É  como se  estivessem  restaurando   a monarquia  de então e não  as lídimas  e  memoráveis conquistas.

O  “pandemônio”, como classificou o  General  De  Gaulle o  movimento  de  maio de  68 na  França, parece  se  repetir no  âmbito do  nosso dessangrado  BAHIA, no  qual  a  democracia  de  que  tanto  se  fala,  não  passa  de uma oligarquia  censitária,  tal  como  tínhamos  em  priscas  eras da  nossa  República.

A  soberania popular,  cuja  legitimidade repousa no  povo  torcedor, é  exercida pelos  sócios,  que  a  compra com  suas contribuições  pecuniárias  e  mensais. É  uma  Democracia  sem  fundamento, uma  farsa, um  embuste!

Repito:  o  fundamento  da  Democracia  é  a  soberania  do  povo.  Do povo  torcedor, que  clama  pela  destituição  dos  que  levaram o  nosso BAHIA ao  circo  de  horrores  que  ora o  atormenta.

Detentor  inconteste da soberania fundamental, o  povo  torcedor, contudo, expia,  em  gritos  desesperados, a impotência  e  a  desgraça de  sua paixão.

A Democracia assim, proclamada pelos  oligárquicas, como o  regime das  liberdades e  da  soberania do  torcedor  se  converte em  um  disfarce  oligárquico,  cujo  maior  desiderato é  cortar  a  garganta  e  a  voz  das  multidões, acobertar  toda  sorte de  desmandos, desvios,  incompetência e desastres.

Enumerá-los é perdulário e inócuo, pois  quem  não  conhece as falácias que  converteram a  gestão  tricolor  em  um  caledoscópio de  mentiras  e  ilusões?

A Nação Tricolor clama por uma oportunidade de  se pronunciar e  exercer algum  papel  na tão decantada  Democracia, ora  exercida, sem respeito  ás regrais elementares de uma  Democracia. Sob o véu  da  impunidade não  podem  perdurar as  crenças  políticas que  fizeram do BAHIA adepto do  politicamente correto, do  multiculturalismo  deformador  da unidade  nacional, da  gastança perdulária  e  irresponsável, das  dívidas  astronômicas, das  contratações de jogadores imprestáveis, enfim da  crônica  de  uma  morte  anunciada.

FIM



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